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Depois de parar de estudar na 5ª série para trabalhar como catador, brasileiro volta à escola, conclui fundamental e médio pelo EJA e conquista vaga na UFRGS

Por Milton Filho
16/08/2026
Parar estudar série trabalhar catador

(Foto: Reprodução)

Por mais de duas décadas, Alex Cardoso ficou afastado da escola, período em que se dedicou à coleta de materiais recicláveis para criar os três filhos. Hoje ele se aproxima de um feito inédito: no dia 2 de setembro irá defender sua tese e terá a chance de ser o primeiro catador de materiais recicláveis a receber um doutorado em qualquer lugar do mundo. O momento está marcado para ocorrer durante o Encontro Estadual do MNCR, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.

É em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, que ele vive e exerce sua profissão. Para ele, o reconhecimento vai além do diploma: representa a validação de uma trajetória construída na profissão, na organização popular e na luta pelos direitos da categoria.

Trajetória de catador até o doutorado pela UFRGS

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Alex deixou a escola cedo, mas décadas depois, retomou os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Em apenas três anos, deu conta de toda a educação básica e garantiu uma vaga no curso de Ciências Sociais da UFRGS. Durante a graduação, o mestrado e o doutorado, ele permaneceu trabalhando como catador e conciliou o trabalho com a vida acadêmica.

Essa experiência prática diferenciava sua pesquisa. Isso porque enquanto muitos pesquisadores acadêmicos aprendem teoria primeiro e depois vão a campo, Alex já vivia a realidade que estudava havia décadas.

Uma tese nascida da própria profissão

O trabalho de doutorado recebeu o título “Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis Enfrentam a Máquina de Moer Mundos: Território Vivo e Reciclagem Popular na Cooperativa Unicca”. A pesquisa analisa como a organização coletiva e as cooperativas permitem que os catadores enfrentem as dificuldades da profissão e conquistem direitos.

O estudo também propõe medidas para fortalecer políticas públicas de Reciclagem Popular. Segundo Alex, durante muito tempo os catadores foram apenas objeto de estudo dentro das universidades, não autores de conhecimento científico.

Agora, com sua pesquisa, eles produzem ciência a partir da própria vivência e experiência acumulada na profissão.

Educação como transformação e resistência

Para Alex, a educação mudou sua trajetória e lhe permitiu ampliar a atuação em defesa dos catadores. Embora esteja próximo de conquistar o título de doutor, pretende continuar nas cooperativas e no movimento dos catadores, usando o conhecimento para construir políticas públicas que garantam mais dignidade. “O título de doutor não cria um catador pesquisador; apenas reconhece uma caminhada forjada no trabalho, na organização Popular, na Educação e na luta dos Catadores e catadoras por direitos”, afirmou.

O objetivo agora é transformar esse reconhecimento acadêmico em ações concretas que melhorem as condições de trabalho para milhares de pessoas que, como ele, vivem da coleta de Materiais Recicláveis.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Milton Filho

Milton Filho

Jornalista, sergipano e coautor do livro 'Memórias do Esporte Clube Vitória: a história rubro-negra contada por seus personagens'

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