No sul da Itália, a cidade de Matera guarda um modo de ocupação que talhou casas, ruas e templos direto na pedra, um processo que se estendeu por milênios. É nos Sassi, o núcleo histórico da cidade, que se concentram esse legado: mais de mil moradias e cerca de 150 templos escavados nas cavernas convivem com mosteiros, antigas oficinas e pontos de comércio, formando um cenário urbano incomum entalhado na encosta.
Registros arqueológicos indicam que a região já era habitada na era do Paleolítico, quando cavernas naturais serviam de abrigo aos primeiros grupos humanos que ali se instalaram. Com o passar dos séculos, sobretudo a partir da Idade Média, esses espaços deixaram de ser apenas abrigo e ganharam novos usos, passando a servir de moradia, templo e local de trabalho, consolidando um modo de vida rupestre que se manteve por gerações.
Uma cidade moldada na rocha
Os Sassi se dividem principalmente entre Sasso Caveoso e Sasso Barisano, separados pela Civita, a área histórica central. O conjunto foi inscrito como Patrimônio Mundial da Unesco em 1993, validando sua importância arquitetônica e arqueológica única no mundo.
As construções não são simplesmente cavernas vazias: os primeiros moradores escavavam o tufo e fechavam os espaços com paredes feitas dos próprios blocos retirados da rocha. Depois surgiram ampliações, cômodos construídos para fora, fachadas e terraços que transformaram o relevo em estrutura urbana complexa.
Em certos pontos, o telhado de uma casa funciona como passagem ou área externa para edificações acima. Escadas, becos estreitos e pátios sobrepostos fazem com que ruas, casas e rocha pareçam integradas numa mesma malha urbana.
As igrejas rupestres e a vida religiosa
As igrejas escavadas na rocha refletem a presença monástica durante a Alta Idade Média. Cavernas preexistentes foram ampliadas e redesenhadas para receber altares, divisões internas, criptas e ambientes monásticos, enquanto outras foram abertas especificamente para funções religiosas, muitas delas ainda guardando pinturas que resistiram aos séculos.
A administração municipal identificou mais de 150 igrejas rupestres no território do parque, cada uma contando uma etapa da evolução espiritual da comunidade. Esses espaços sagrados moldados na pedra demonstram como a população integrou fé e funcionalidade ao ambiente desafiador da encosta rochosa.
A engenharia hidráulica que sustentou a vida
Viver em uma encosta rochosa exigia resolver o problema do acesso à água. Os moradores desenvolveram sistemas de captação de água da chuva e armazenamento em cisternas, aproveitando a inclinação natural do terreno para distribuir a água por gravidade entre os diferentes níveis dos Sassi.
Os pátios compartilhados também desempenhavam papel crucial na vida comunitária, servindo como espaços de encontro, trabalho e convivência entre grupos de residências conectadas verticalmente pela encosta. Essa infraestrutura transformou um desafio geográfico em oportunidade de integração social e convivência contínua.
O esvaziamento forçado dos Sassi
Apesar de sua importância, os Sassi enfrentaram um momento crítico no século XX. Na década de 1950, problemas sanitários levaram as autoridades a remover a população dos Sassi para outras partes da cidade, abrindo caminho para que o conjunto histórico fosse posteriormente restaurado.
O conjunto ficou parcialmente abandonado durante esse período. Já nos anos 1980, a população voltou a ocupar o local, e iniciativas de restauração recuperaram o uso residencial e comercial de boa parte das construções. O reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco veio em 1993, o que consolidou a importância do conjunto e impulsionou sua vocação turística.










