Grãos de poeira cósmica se transformando em rocha: esse é o retrato captado numa estrela distante chamada HOPS-315, e ele reproduz um momento que o próprio Sol já viveu. O registro chegou por meio do ALMA, instalado no deserto do Atacama, somado às leituras em infravermelho do telescópio James Webb em setembro de 2025.
O que os dois instrumentos flagraram foi o instante em que gás e poeira começam a se condensar e transformar em pequenos grãos sólidos que formam os primeiros blocos de matéria — a etapa mais primitiva na formação de planetas. Esse tipo de fase costuma ficar escondido dentro de nuvens espessas de gás e poeira, o que torna o flagrante um raro acesso a um processo normalmente invisível.
Um berçário estelar sob observação
A HOPS-315 fica numa região onde novas estrelas nascem a partir de grandes aglomerados de matéria em suspensão. Ao redor dela existe um disco protoplanetário, uma espécie de anel giratório de partículas que orbita o astro recém-formado e funciona como matéria-prima de futuros mundos.
É dentro desse disco que a física entra em ação: elementos presentes no gás se condensam em pequenos grãos minerais. Esses grãos colidem entre si pela ação da gravidade, se agregam e aos poucos criam estruturas maiores.
Ao longo de milhões de anos, esse acúmulo pode gerar objetos cada vez maiores, capazes de alterar completamente a dinâmica do sistema em formação.
Como o Atacama e o espaço se complementaram
Cada equipamento contribuiu com uma peça do quebra-cabeça. O ALMA, sigla para Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, rastreou ondas de rádio emitidas pela matéria ao redor da estrela, permitindo identificar a distribuição da matéria e as condições físicas presentes durante a formação dos primeiros sólidos.
O James Webb, complementando essas observações, detectou assinaturas de radiação infravermelha, permitindo estudar a composição química da poeira interestelar que envolve a HOPS-315. Juntas, as duas tecnologias permitiram mapear tanto a estrutura física quanto os elementos presentes naquele ambiente recém-formado.
Silicatos que remontam ao próprio Sol
Entre os achados está a presença de minerais de silicato, compostos que também aparecem em asteroides e planetas rochosos do Sistema Solar. Eles surgem quando o material em volta da estrela esfria e elementos antes gasosos se condensam em grãos sólidos.
Os minerais de silicato surgem quando o material em volta da estrela esfria e elementos antes gasosos se condensam em grãos sólidos, marcando o instante em que essa transformação tem início.
Esse tipo de composto ajuda a reconstituir uma fase que o Sistema Solar atravessou há 4,6 bilhões de anos, período em que o próprio Sol ainda estava envolto por um disco semelhante. Observar a HOPS-315 equivale a olhar para um retrato daquilo que, um dia, deu origem à Terra e aos demais planetas rochosos.










