Aos 30 anos, Karine tinha um objetivo bem definido: economizar o suficiente para comprar um imóvel e criar ali a filha, de 11 anos. Formada como bombeiro civil, ela enfrentava dificuldade para se manter empregada em Salvador, vivendo de bicos e sem previsibilidade de renda — o que afastava a possibilidade de realizar esse projeto.
Foi então que recebeu, por indicação de um conhecido radicado no Camboja, a notícia de uma oportunidade de trabalho remunerada em moeda estrangeira, na área de atendimento ao público.
A oferta incluía custeio da viagem e moradia garantida, o que a convenceu de que finalmente surgira a chance que buscava. Karine topou, confiou a filha aos cuidados dos pais e, em novembro do ano passado, viajou acreditando se tratar de uma oportunidade de emprego regular.
Karine e a realidade do tráfico humano no Camboja
Assim que chegou ao Camboja, ela percebeu que algo não correspondia ao prometido. Seu passaporte foi retido imediatamente, ela ficou confinada a um alojamento e foi coagida a aplicar golpes contra brasileiros. No local, os integrantes do grupo não podiam sair do alojamento e estavam sujeitos a regras, multas e outras formas de punição, e Karine atuava na primeira linha.
Responsável pelo atendimento inicial de abordagens fraudulentas, enquanto outras pessoas davam continuidade aos golpes — inclusive com falsas situações envolvendo policiais e promotores — para enganar brasileiros e tirar dinheiro deles.
Ela havia caído em uma rede de tráfico humano. O esquema recrutava brasileiros para cooptar novas vítimas. Mesmo tentando fugir, Karine não conseguiu, e quando disse que queria sair, foi informada de que teria de pagar uma multa muito alta.
Após dez meses de sofrimento, a situação piorou quando o grupo foi forçado a deixar o território cambojano e transferido para Madagascar. Nas últimas semanas, policiais apareceram no hotel onde o grupo estava retido e pediram os passaportes. Como ninguém tinha os passaportes, guardados por um responsável pela empresa, dois colegas se recusaram a entregar os telefones.
Os policiais apontaram armas para eles, e quando Karine e uma colega pediram que não fizessem nada, um policial deu um tapa no rosto das duas e as jogou no chão. Os 23 brasileiros foram levados à delegacia e não tiveram acesso a comida nem água. Karine ficou presa em um país distante, sem meios de voltar.
A situação a levou ao ponto de crise: ela tentou se suicidar duas vezes enquanto estava no Camboja.
Grupo de 23 brasileiros retidos em Madagascar busca retorno
Atualmente, ela faz parte de um grupo de 23 brasileiros que estava no Aeroporto de Antananarivo, onde uma organização não governamental local acolheu o grupo. São nove baianos, dois sergipanos, um mineiro, oito cariocas e três alagoanos — todos vítimas de tráfico e sem recursos para comprar passagens de volta.
Para arrecadar fundos, a advogada Queila Veloso, amiga próxima de Karine, criou uma vaquinha online. Ela disse que apelou aos políticos baianos por ajuda financeira, mas não teve retorno ou recebeu respostas com muita burocracia. A advogada escreveu que a emergência não espera pela burocracia.
Como a armadilha foi montada
Queila explicou à reportagem que o colega dela, já envolvido na rede criminosa, recebeu instruções para aliciar compatriotas no Brasil. O grupo criminoso oferecia benefícios e prestígio a brasileiros já capturados que conseguissem trazer novas vítimas — um sistema que transformava prisioneiros em recrutadores involuntários.
O amigo a abordou com promessas detalhadas: trabalho no exterior pagando em dólar, despesas de viagem cobertas, habitação apropriada e a possibilidade de economizar por um ano antes de retornar ao Brasil. Ela levou cerca de um mês refletindo antes de aceitar — na época, não tinha passaporte e precisou providenciá-lo especificamente para a viagem.
A rota até o Camboja durou dois dias, com uma parada na Turquia. Segundo levantamentos divulgados por órgãos como o Ministério Público Federal, o Camboja é uma das rotas mais frequentes para brasileiros capturados por redes de tráfico.
Resposta das autoridades e urgência do retorno
Karine mantém contato regular com os familiares na Bahia e enfatiza sua determinação de voltar com segurança. Em contato com a reportagem, Karine reafirmou o desejo de retornar ao país para reencontrar a filha e os familiares, com quem mantém comunicação, e disse esperar poder fazer essa volta de forma segura.










