Um excedente recorde de batatas transformou Berlim em um grande centro de distribuição gratuita de alimentos. A colheita foi a maior em 25 anos, com aumento significativo na produção de grãos em relação ao ano anterior.
Quando um agricultor perto da cidade de Leipzig viu seu contrato de venda desaparecer de última hora, resolveu oferecer 4 mil toneladas de batatas à população alemã.
A iniciativa, batizada de “4.000 Toneladas”, ganhou força quando um jornal de Berlim se uniu à Ecosia, organização não governamental baseada na capital alemã e focada em sustentabilidade. Como resultado, 174 pontos de distribuição foram criados espontaneamente pela cidade para que os moradores pegassem batatas de graça.
Distribuição gratuita de batatas une Berlim
Pessoas de todas as classes sociais compareceram aos pontos de coleta, muitas sentindo o peso do aumento do custo de vida. Elas enchiam sacolas, baldes e carrinhos com batatas. A cena descrevia o clima de solidariedade em Berlim.
A professora Astrid Marz foi a um dos 174 pontos de distribuição em Kaulsdorf, no leste de Berlim. Ela não conseguia contar quantas batatas carregava na mochila velha.
“Parei de contar em 150. Acho que tenho o suficiente para me alimentar e manter meus vizinhos até o final do ano,” declarou ao Theguardian. O que parecia fake news nas redes sociais virou um fenômeno de solidariedade em uma cidade mergulhada em frio ártico.
De rejeição a revival nutricional
Essa importância tem raízes profundas na história alemã, especialmente nos períodos de fragmentação política e unificação nacional que marcaram o século XIX. No século 18, o rei Frederico II da Prússia emitiu um decreto — o Kartoffelbefehl — exigindo que a população cultivasse batatas.
O decreto ajudou a estabelecer as batatas como alimento básico, apesar da resistência inicial à sua textura e forma estranhas. Agora, 25 anos depois da maior colheita, o tubérculo voltava a ser celebrado. Organizações sociais, como cozinhas comunitárias, abrigos para pessoas sem moradia, jardins de infância, escolas e igrejas, receberam parte das batatas.
Associações sem fins lucrativos também receberam toneladas de batatas que, de outro modo, iriam para aterros sanitários ou seriam convertidas em biogás. Até o zoológico de Berlim participou da “missão de resgate”, levando toneladas para alimentar seus animais.
Além disso, dois carregamentos inteiros de suprimentos humanitários foram enviados para a Ucrânia na semana passada.
Do cardápio ao renascimento culinário
Receitas começaram a circular na internet enquanto moradores tentavam descobrir o que fazer com o excedente. Chefs renomados da cidade abraçaram o desafio e viram uma oportunidade de dar às batatas um tratamento digno de estrela Michelin.
O uso de uma técnica inovadora permite fazer um caldo rico com cascas de batata assada, além de um vinagrete de batata muito procurado. Receitas famosas também ressurgiram nas discussões entre especialistas e apaixonados por gastronomia.
Entre elas está a Kartoffelsuppe (sopa de batata), que a ex-chanceler da Alemanha, Angela Merkel, compartilhou ao longo de sua carreira política. Além disso, especialistas reforçaram as propriedades nutricionais das batatas, como vitamina C.
Também destacaram o potássio, em um momento em que alguns gurus de condicionamento físico tinham rejeitado as batatas ao recomendar evitar carboidratos.
Esperança em tempos de crise
A atmosfera que se formou nos pontos de distribuição, particularmente no Tempelhofer Feld, era quase festiva. Pessoas ajudavam umas às outras com cargas pesadas e trocavam dicas culinárias.
O fato ocorreu enquanto Berlim enfrentava um frio ártico que paralisou o seu transporte público durante o último e deixou as ruas bastante geladas. Neste cenário, uma solução agrícola se transformou em um momento de conexão humana entre os populares da cidade.










