Paredões esculpidos pelo vento em Marte aparecem com um nível de detalhe nunca antes capturado, numa fotografia feita pelo rover Curiosity e divulgada pela Nasa. A cena mostra as formações chamadas yardangs banhadas pela luz do início da manhã marciana, um momento raro de se registrar com tanta nitidez.
Seis fotografias tiradas pela câmera Mastcam, equipamento instalado no veículo, foram unidas para montar esse panorama. O instantâneo corresponde ao 4.982º dia de operação da missão em solo marciano.
Cores reais, sem ajuste digital
Ao contrário do que costuma ser feito com o restante do acervo de imagens da sonda. Este registro não recebeu o tratamento de balanço de branco, etapa que normalmente aproxima as cores capturadas daquilo que o olho humano veria sob luz terrestre. A escolha manteve intactos os tons que realmente predominam no amanhecer do planeta vermelho.
Por isso, o azul suave que cobre o primeiro plano da fotografia não é um efeito artificial: é a cor genuína do céu marciano logo depois do nascer do sol. Ao fundo, os paredões recortados pelo vento se destacam na paisagem árida, criando um contraste raramente visto em publicações anteriores da agência.
Uma trilha de 16 quilômetros no Monte Sharp
As formações registradas ocupam uma faixa de 16 quilômetros na porção noroeste do Monte Sharp, montanha de cerca de 5 quilômetros de altura explorada pelo Curiosity desde 2014. Diferentes camadas de rocha compõem essa elevação, e cada uma delas guarda uma espécie de registro de um momento distinto da história geológica do planeta.
Lagos e rios atravessaram essa região bilhões de anos atrás, segundo evidências já reunidas pelos cientistas a partir do estudo dessas camadas. Sais e outros minerais ficaram depositados na superfície depois que a água evaporou, e a ação continuada dos ventos teria, com o tempo, exposto a estrutura que hoje forma os yardangs.
Origem ainda intriga os cientistas da missão
A camada que deu origem aos paredões ainda não teve sua formação totalmente explicada.
Ashwin Vasavada, cientista responsável pelo Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, descreveu essa camada como algo fora do padrão: a cor não combina com o restante da paisagem. As rochas estão inclinadas num ângulo incomum e a sensação é de que o material foi colocado ali posteriormente.
Uma hipótese discutida pela equipe aponta que cinzas de antigas erupções vulcânicas possam estar na origem dessas rochas. Para confirmar ou descartar essa ideia, a missão depende de coletar amostras diretamente no local, o que ainda vai levar algum tempo.
Braço robótico deve tocar as rochas em 2027
O trajeto do rover passa agora por uma área com camadas ricas em sulfatos e carbonatos, minerais associados a períodos em que a superfície de Marte teria passado por processos de secamento. Essa etapa faz parte da quinta missão estendida do veículo, que está no segundo ano de duração.
Chegar à base dos yardangs só deve acontecer em 2027, quando o braço robótico poderá, enfim, coletar dados diretamente das rochas. Esse material é visto como peça-chave para reconstruir um capítulo ainda obscuro da história geológica de Marte.










