Um levantamento genético com mais de 500 ossos de mamutes lanosos mostra que grupos humanos do Paleolítico Superior caçavam principalmente fêmeas da espécie. O resultado foi publicado na revista Current Biology e reacende uma discussão que dura décadas sobre a origem dos grandes depósitos ósseos encontrados perto de sítios arqueológicos.
A descoberta ajuda a resolver uma dúvida antiga entre paleontólogos: essas pilhas de ossos se formaram naturalmente ou resultaram da ação humana? Os cientistas compararam a proporção de machos e fêmeas em ambientes selvagens com a encontrada nos locais associados à presença humana. E identificaram um padrão que aponta para caça direcionada, não para acúmulo natural.
O padrão revelado pelos genomas
Ao todo, a análise incluiu 521 genomas de mamutes espalhados pela Eurásia e pela América do Norte. Desses, 448 foram sequenciados pela primeira vez, e a diferença encontrada entre os dois tipos de ambiente surpreendeu os pesquisadores.
Em áreas onde os animais morreram sem interferência humana, a maioria dos restos pertencia a indivíduos do sexo masculino, cerca de 64% do total. Já nos locais ligados à atividade humana, esse quadro se inverteu quase por completo: 70% dos ossos eram de fêmeas, e apenas 30% de machos. Essa diferença indica que os caçadores não apenas abatiam mamutes, mas escolhiam deliberadamente quais animais perseguir.
Por que os machos aparecem mais na natureza
O pesquisador David Díez del Molino, , do Centro de Paleogenética e coautor sênior da pesquisa, indicou que comparar as proporções genéticas entre os dois contextos permitiu concluir que a caça humana foi a principal responsável pelas acumulações ósseas.
A vida solitária dos machos os tornava mais suscetíveis a quedas em sumidouros e deslizamentos de terra, o que aumentava a chance de seus restos ficarem preservados por longo tempo. Por isso, os restos dos machos eram mais comuns nos depósitos formados sem intervenção humana.
As fêmeas, por outro lado, viviam em grupos com comportamento diferente, o que mudava a probabilidade de encontro com os caçadores.
Uma preferência que ainda intriga
Os grupos de caçadores aproveitavam praticamente tudo dos mamutes abatidos: carne, gordura, pele e marfim. Hannah M. Moots, pesquisadora de pós-doutorado do Centro de Paleogenética e autora principal do estudo, disse que os motivos da caça podem ter sido mais complexos do que parecem.
Se o comportamento desses animais se assemelhava ao dos elefantes atuais. As fêmeas que viviam em rebanhos matriarcais podem ter tido defesas de grupo que tornavam encontros com esses rebanhos tão ou mais arriscados. Outra possibilidade é que os rebanhos liderados por fêmeas se movessem pela paisagem de maneiras mais previsíveis do que os machos solitários.
Por isso, os caçadores-coletores do Paleolítico Superior podem simplesmente ter encontrado esses rebanhos com mais frequência. Outra hipótese levantada é que os ossos masculinos tenham sido descartados para outros usos e removidos das pilhas analisadas, mas nenhuma evidência confirma essa explicação até o momento.
O sequenciamento genético também identificou um mamute da Ilha Wrangel com mosaicismo X0/XX. Uma combinação cromossômica em que o indivíduo tinha uma única cópia do cromossomo X em algumas células e duas em outras. Em humanos, essa alteração é conhecida como síndrome de Turner. Foi a primeira vez que pesquisadores documentaram e identificaram essa condição em uma espécie extinta.










