Telmo Sá, criador de conteúdos português, sempre foi atraído por lugares esquecidos pelo tempo. Ele já conhecia a história de Varosha, uma cidaade à beira-mar, famosa por ser o refúgio de estrelas hollywoodianas. Mas foi em 2020, ao se deparar com imagens de um edifício abandonado da Toyota, decidiu procurar pela cidade onde estava localizado.
Desde então, a região ocupava sua lista de desejos. No aniversário de 28 anos, em janeiro, transformou o fascínio em viagem. Varosha, bairro costeiro do Chipre integrado à zona de Famagusta, foi um dos destinos de férias mais procurados do Mediterrâneo entre os anos 50 e 60.
Hotéis, apartamentos e infraestruturas de lazer atraíram grandes nomes do cinema: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Brigitte Bardot, Sophia Loren e Raquel Welch passaram por lá em busca de luxo e mar. A região congelou naquele momento de prosperidade quando a invasão turca de 1974 forçou sua evacuação emergencial.
Como a cidade parou no tempo
O golpe militar grego de 1974 buscava anexar o Chipre à Grécia, o que levou a Turquia a intervir militarmente, ocupando o norte da ilha e áreas estratégicas como Varosha. A região permaneceu fechada sob controlo militar por mais de quatro décadas.
A região permaneceu fechada sob controlo militar até 2020, quando foi parcial e estrategicamente reaberta pelas autoridades cipriotas turcas para receber turistas, mantendo restrições militares até hoje.
Dentro das áreas acessíveis ao público, as estruturas preservam o estado exato do momento da evacuação: hotéis, restaurantes, lojas de souvenirs, cafés. E barbearias com marcas como Philips, Coca-Cola e Marlboro ainda visíveis nas montras. Checkpoints militares aparecem a cada 200 metros, lembrando constantemente que se trata de zona protegida sob vigilância permanente.
A jornada até à cidade fantasma
Chegar a Varosha exigiu travessia pela capital dividida do Chipre, Nicósia, única capital mundial com fronteira entre dois países — Turquia e Grécia separadas apenas por uma linha.
Logo após cruzar para o lado norte, Telmo percebeu o contraste: ninguém falava inglês, a moeda era diferente. Conforme informou ao NiT, precisava perguntar a locais até para encontrar a parada de autocarro.
O transporte em si foi parte da aventura — ônibus que só saíam quando lotavam completamente, com o condutor gritando as paradas. Após descer em Famagusta, foram 30 minutos de caminhada até à entrada. De longe, já era possível perceber a extensão da região e a presença militar que a circunda.
Conforme explicou ao NiT, Telmo escolheu chegar de manhã para evitar outros turistas e ter uma experiência mais exclusiva.
Dentro das estruturas abertas
Para entrar na parte acessível, passou por revista militar — drones e bandeiras de outros países são proibidos. Enquanto explorava as ruas, encontrou vários checkpoints militares reforçando a realidade de zona protegida. Nas lojas, reconheceu marcas internacionais congeladas em vitrinas, com maços de cigarros antigos ainda dispostos nas prateleiras, como se o tempo nunca tivesse passado ali.
As construções que se mantêm abertas ao público revelam a época de ouro de forma tangível — um museu vivo que congela a história num ponto específico do passado. Cada detalhe preservado fala de um destino que deixou de existir em 1974, transformando Varosha numa cápsula do tempo à beira-mar do Mediterrâneo.










