Foi na infância, em meio à Guerra Civil Iugoslava, que Luka Modric passou a exercitar o controle sobre tempo e espaço que marcaria sua carreira, consagrada em 2018 com a conquista do prêmio de melhor jogador do mundo.
Para Modric, essa habilidade nasceu muito antes dos campos profissionais, de uma necessidade que transcendia o jogo. Quando era pequeno, o conflito que dividiu a antiga Iugoslávia atingiu diretamente sua cidade natal, Zadar, no litoral da Croácia.
Entre 1991 e 2001, período do conflito, o hotel Kolovare passou a acolher famílias deslocadas pela guerra, entre elas a de Modric. No subsolo, havia um esconderijo contra bombas. No estacionamento, improvisava-se um campo onde ele corria e chutava bolas, desviando dos adultos ao redor. Aos 6 anos, Modric perdeu o avô, morto por uma ofensiva de rebeldes sérvios na região que dava nome à família.
Seus pais fugiram durante dois dias pelas montanhas em busca de segurança, deixando o menino em um cenário de incerteza e perda. Nesse contexto, o futebol surgiu como uma forma de salvação quando o NK Zadar iniciou um programa para recrutar crianças nos abrigos. O programa oferecia aos jovens atividades além das paredes dos refúgios.
A trajetória de Luka Modric, dos abrigos à Bola de Ouro
No início, os treinos na escolinha local eram interrompidos por ataques das forças sérvias. Apesar da estrutura física frágil, a capacidade de Modric para ler o jogo impressionava quem o observava.
Testado pelo Hadjuk Split, um dos principais clubes croatas, Modric não foi aprovado por ser considerado fisicamente frágil para os padrões exigidos pelo clube; foi o Dínamo de Zagreb que decidiu confiar no talento do garoto. Aos 16 anos, o clube o contratou.
Nos empréstimos seguintes, Modric ganhou experiência crucial, e aos 18 anos, foi eleito o melhor jogador da Liga Bósnia pelo Zrinjski Mostar. Após renovar o contrato, comprou uma casa para os pais em Zadar.
No Dínamo, conquistou três títulos nacionais. Barcelona, Arsenal e Chelsea fizeram propostas, mas o Tottenham o contratou em 2008 por 20 milhões de euros.
A consolidação no Real Madrid
Modric consolidou ainda mais sua carreira futebolística indo para o Real Madrid, mas sofreu inicialmente quando o clube espanhol estava sob o comando de José Mourinho. Nessa época, ele se firmou como peça fundamental com a chegada de Carlo Ancelotti. Depois, com as contratações de Toni Kroos e Casemiro, formou o tripé que multiplicou os títulos. Atualmente, são 14 conquistas de Champions League.
Modric levantou cinco deles. Em 2018, rompeu o domínio de Messi e Cristiano Ronaldo na Bola de Ouro e foi o único a fazê-lo naquele ano. Aos 37 anos, alcançou a semifinal da Copa do Mundo contra a Argentina. Modric havia feito sua estreia pela seleção contra a Argentina em 1º de março de 2006, em um amistoso disputado na Basileia, na Suíça. Nas quartas de final da Copa de 2022, venceu o Brasil na decisão por pênaltis.
Depois da vitória, Modric consolou Rodrygo, seu companheiro no Real Madrid, que havia errado a primeira cobrança de pênalti.
A relação paternal com Rodrygo
A relação entre Modric e Rodrygo vai além do campo. Aos 37 anos, o croata descobriu que o pai de Rodrygo, então com 21 anos, tinha apenas um ano a mais que ele.
Desde então, ele passou a chamar o jovem brasileiro de filho, e Rodrygo o chama de pai. Em entrevista à agência EFE, Rodrygo contou que gosta de tratar Modric como pai, destacando a boa relação entre os dois e o apoio constante que recebe do croata nos momentos em que precisa.
O menino que perdeu o avô aprendeu o significado da resiliência, uma lição que o acompanharia até conquistar a Bola de Ouro e se tornar padrinho de uma nova geração de craques.










