Pesquisadores atuais divergem sobre se os 12 Apóstolos de Cristo, descritos na Bíblia Sagrada, realmente existiram tal como a tradição cristã narra ou se essa configuração foi elaborada depois da morte de Jesus, como forma de dar sentido ao movimento que se seguiu.
Historiadores e teólogos se debruçam sobre os textos mais antigos em busca de pistas sobre como era, de fato, o grupo próximo a Jesus de Nazaré. A discussão reúne pesquisadores ligados à área de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de nomes vinculados à Universidade Presbiteriana Mackenzie e à Pontifícia Universidade Gregoriana.
Segundo professores dedicados ao estudo histórico da Bíblia, a referência ao número 12 remete diretamente aos 12 filhos de Jacó e às 12 tribos que formaram o antigo povo hebreu. Esse simbolismo teria servido para fundamentar a hierarquia dentro das comunidades cristãs primitivas, mais do que para descrever um fato literal.
O que Paulo escreve sobre os apóstolos
A mais antiga menção aos apóstolos aparece na primeira carta de Paulo aos Coríntios, escrita na década de 50, antes, portanto, dos evangelhos que conhecemos hoje. Nesse texto está registrado o que se considera o anúncio mais antigo da fé cristã, no qual se afirma que Cristo morreu pelos pecados humanos conforme as Escrituras, foi sepultado, ressuscitou no terceiro dia e apareceu primeiro a Cefas e depois a um grupo de doze seguidores.
Estudiosos apontam problemas nesse relato. Algumas versões antigas em grego registram onze em vez de doze, o que sugere uma questão prática: Judas Iscariotes, que entregou Jesus, não poderia estar junto ao grupo após a morte de Jesus. Ainda assim, essa é a única menção de Paulo aos 12 em todas as suas sete cartas, datadas da mesma década.
O significado simbólico dos 12
Historiadores reconhecem que provavelmente havia 12 integrantes no núcleo principal entre os que acompanhavam Jesus, sobretudo por causa do peso do simbolismo dos 12. Esse simbolismo era forte nas tradições judaicas e serviria para legitimar a autoridade do grupo nascente de cristãos.
Porém, surgem inconsistências quando as cartas de Paulo são comparadas aos evangelhos e ao Atos dos Apóstolos. Para Paulo, a noção de apóstolo amplia-se para incluir outras pessoas além dos 12 originais. Isso torna incerto se a posição especial dos 12 já existia quando Jesus estava vivo ou se foi consolidada apenas após sua morte.
Mais do que 12 seguidores
Historiadores e teólogos chegam a um consenso: havia outros seguidores além dos 12, entre eles mulheres que desempenhavam papel relevante no movimento. Na carta aos Romanos, Paulo saúda Andrônico e Júnias como apóstolos eminentes. Júnias era uma mulher apóstola que viveu antes do próprio Paulo. O termo apóstolo, por sua vez, não tinha um único significado.
Maria Madalena também desempenhou papel importante e é chamada informalmente de apóstola dos apóstolos. O papa Francisco elevou sua festa litúrgica ao mesmo nível da dos outros apóstolos, reconhecendo sua importância histórica no movimento de Jesus.
Textos mais antigos complicam ainda mais a questão. O chamado “Evangelho Q” e o “Evangelho de Tomé” nunca mencionam a existência de um grupo de 12 apóstolos. Além daquele trecho da carta aos Coríntios, Paulo também não volta a falar sobre os 12 em suas correspondências.
O desafio dos estudiosos é separar o que textos históricos comprovam do que foi construído pela Igreja primitiva. Na Igreja Católica, a doutrina da sucessão apostólica ensina que todos os bispos são sucessores dos apóstolos, uma linhagem que remonta aos primeiros anos do cristianismo.
As evidências sobre quem realmente integrava o círculo de Jesus permanecem ambígua, no entanto, gerando uma reflexão sobre como a tradição cristã primitiva moldou a história ao solidificar a importância dos 12.










