Todo início de mês, é comum que muitas pessoas repitam o mesmo hábito: elas despejam canela em pó na palma da mão. Depois de uma respiração profunda, direcionam o sopro da especiaria em direção à porta de entrada da casa. Trata-se de um gesto breve, geralmente feito junto com algum pensamento voltado à prosperidade, à abertura de novos caminhos e à renovação.
Apesar de dar a impressão de ser algo novo, esse costume tem raízes em tradições antigas de origem africana, indígena e europeia, segundo aponta a consultora espiritual Kelida Marques. Esse gesto moderno é uma adaptação de práticas muito antigas que usavam ervas, aroma e sopro para movimentar energia.
A canela como símbolo de riqueza
Segundo Kelida Marques, a canela se tornou associada à prosperidade há milhares de anos. Em perfumes, cerimônias e práticas medicinais, egípcios, mesopotâmicos, gregos e romanos usavam a especiaria. A presença da canela indicava prestígio. Durante a Antiguidade, as especiarias não integravam o cotidiano comum. Vinham de rotas comerciais longas e perigosas, o que aumentava seu valor e sua importância simbólica.
Conforme explica Kelida, antes de serem ingredientes culinários, as especiarias eram objetos de luxo que simbolizavam fartura, saúde e boa sorte. Essa associação entre a canela e a riqueza atravessou gerações e permanece no imaginário coletivo até hoje.
Influências de diferentes tradições espirituais
Práticas semelhantes de usar ervas aromáticas e sopro surgem em várias culturas. Há séculos, aromas são utilizados por povos africanos, indígenas e europeus para purificar ambientes, ativar energias ou direcionar intenções.
Nas tradições africanas, ervas e aromas costumam ser usados como forma de abrir caminhos, enquanto em povos indígenas as plantas cumprem função de limpeza energética e ligação espiritual. Já na Europa medieval, especiarias eram aplicadas em rituais de cura e proteção.
Todas essas influências convergem no ritual atual, o que explica por que incorporar a canela se tornou natural nas práticas contemporâneas. Segundo Kelida, trata-se de uma ressignificação moderna de práticas ancestrais: a lógica de usar sopro, aroma e intenção é antiga, mesmo que a forma atual seja recente.
O poder do sopro no ritual
Se a canela carrega o simbolismo da prosperidade, é o ato de soprar que dá vida ao ritual. O sopro representa o elemento ar e está ligado ao movimento, à intenção e ao pensamento. Em diferentes culturas, o gesto de soprar velas, ervas, fumaça ou pó funciona como uma forma de ativação e bênção.
Ele está presente no benzimento, em rituais de povos indígenas e africanos, e aparece também em momentos cotidianos, como quando alguém sopra as velas de aniversário fazendo um pedido. Segundo Kelida, o sopro é uma maneira de impulsionar a intenção — ele movimenta a energia e transforma um pensamento em ação simbólica.
O significado do primeiro dia do mês
A escolha do primeiro dia do mês não é casual no ritual da canela. Momentos de recomeço — seja um novo dia, mês ou ano — oferecem a chance de ressignificar ciclos e renovar intenções. Quando se reúnem a canela, historicamente símbolo de riqueza, conforme explica Kelida, o gesto ancestral do sopro e o primeiro dia do mês, o ritual se torna especialmente propício.










