Um condomínio de luxo localizado na Praia do Forte, no município de Mata de São João (BA), é o local de trabalho do porteiro Abraão Menezes dos Santos. Em 2025, aos 42 anos, seu caso ganhou notoriedade por conta de sua trajetória em relação aos estudos.
Analfabeto funcional até os 13 anos de idade, Abraão mantém como porteiro uma rotina de leitura que resulta em cerca de 50 obras concluídas por ano. A trajetória contrasta com o cenário brasileiro: o analfabetismo funcional atinge 29% da população de 15 a 64 anos no Brasil. O patamar se mantém desde 2018.
O baiano só concluiu o ensino médio quando alguns já terminavam a faculdade. Apesar da formação tardia, tornou-se leitor assíduo e manteve a paixão pelos livros., uma rotina que se consolidou a ponto de ele registrar no celular cada título lido. Só nos primeiros meses de 2025, já eram nove livros concluídos, de gêneros e autores diferentes.
Porteiro da Praia do Forte e sua paixão por Machado de Assis
Até os 13 anos, escrever o próprio nome era um desafio para o porteiro, que praticamente não tinha contato com a leitura. A virada veio depois, com a formação tardia no ensino médio e o gosto crescente por histórias e ideias.
Hoje, ele cita de cor a obra de Machado de Assis (1839-1908) e demonstra familiaridade com seus trechos. Abraão declara seu carinho por Memórias Póstumas de Brás Cubas e planeja reler o romance em 2031, quando o livro completa 150 anos.
Da ficção popular à filosofia densa
A estante de Abraão reúne estilos e gêneros literários variados. Ele lê títulos de Paulo Coelho e Nietzsche na mesma época.
Entre seus favoritos destes autores estão A Espiã, de Paulo Coelho, e Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. Além disso, ele também tem apreço por livros como Crentes, sobre a ascensão da igreja evangélica no Brasil, O Médico e o Monstro, Helena e Odisseia.
Renda modesta não é obstáculo
O salário de porteiro não impede o ritmo de leitura de Abraão, enquanto pessoas que ganham muito mais não leem. O exemplar de Odisseia, por exemplo, veio de um espaço de doações na Praia do Forte, onde ele costuma garimpar títulos.
Muitos títulos de sua coleção pessoal — cerca de cem livros — passam adiante entre amigos, formando um círculo de Leitura informal. “Sou cara de pau: às vezes, chego na casa de alguém, vejo um Livro ali no canto e pergunto: me empresta?”, brinca ele, que raramente ouve um não porque cumpre o prazo de devolução.
Disciplina que sustenta a meta anual
A falta de tempo não impede Abraão de manter o ritmo. Disciplinado, ele separa entre 30 e 40 páginas por dia. A rotina é possível porque trabalha no esquema “dia sim, dia não”. Essa constância, e não a sorte ou o tempo livre de sobra, garante a média de 50 livros concluídos por ano.
Enquanto a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que 53% dos brasileiros ficaram três meses sem ler nada e apenas 27% terminou um livro no mesmo período, Abraão seguiu na contramão dessa estatística com sua rotina de páginas fixas.
Para 2031, o plano já está definido: parar tudo para reler Memórias Póstumas de Brás Cubas. O romance o marca pela crítica ao racismo e pela célebre frase de Machado sobre não transmitir seu legado de miséria.
A obra também traz a passagem em que Prudêncio, antigo escravo de Brás, reproduz a violência que sofreu contra outro homem escravizado.










