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De biscoito, galinha e homem de relógio

Vladimir Souza Carvalho

Publicado: 28/10/2026 às 08:32

Sul, Sudeste e Centro-Oeste devem estar com relógios adiantados em uma hora. Renato Araujo/ABr(Arquivo)/Renato Araujo/ABr(Arquivo)

Sul, Sudeste e Centro-Oeste devem estar com relógios adiantados em uma hora. Renato Araujo/ABr(Arquivo) (Renato Araujo/ABr(Arquivo))

Vladimir Souza Carvalho*

O biscoito era vendido em uma lata de flandres, em padarias, em retalho. Não existia, como hoje, os pacotes pequenos, tão comuns nas prateleiras dos super-mercados. Então, e aí eu chego onde queria, ao retirar os biscoitos, na contagem da quantidade que o freguês pedia, aquele que se partisse ao meio, era incluído no pacote, sem que por ele o freguês pagasse algum complemento. A esse biscoito a prática do dia a dia lhe concedeu a expressão de bolacha quebrada, por ser gratuita, vindo no pacote, prenda que o dono da padaria proporcionava.

Meu pai, com a autoridade que a ironia lhe concedia, ampliava o conceito para tudo que era objeto de oferenda, que, assim, também passava a ser encarado como bolacha quebrada. O termo se perdeu nos tempos de hoje, ou se perdeu em algum meandro do passado. Sua evocação me traz à tona a expressão que ele fazia, dando-se para ver que uma filosofada estava em curso.

Já a expressão galinha morta apresenta outros contornos. E, aliás, vi em viagem Itabaiana-Aracaju, Toinho Macaco trazia uma galinha para presentar um ex-magistrado que judicou por muitos anos em Itabaiana. Era um círculo vicioso. Trazia a galinha, ganhava una gorjeta, com a qual, no retorno a terra natal, adquiria outra galinha destinada a nova oferta. Pois bem. Um dia, a galinha, que vinha na mala do táxi, não resistiu ao ambiente fechado. Um passageiro, ao descer antes do centro urbano de Aracaju, ao pegar sua bagagem na mala, percebeu que a galinha estava morta. Deu a notícia. Toinho Macaco desceu para ver, sendo convencido a vender a galinha ali mesmo, ao passageiro. Me lembro do passageiro usar a expressão galinha morta para justificar o baixo preço. Não ficaria bem dar ao ex-magistrado uma galinha morta.

A bolacha quebrada e galinha morta merecem figurar no dicionário de expressões sergipanas, e, nesse sentido, ganharem a imortalidade da página de um livro, no que serão elevadas a nobre condição de linguagem de homem de relógio. Homem de relógio? Sim, termo que papai sempre usava para se referir a gente que ele tinha por importante. O que não poderia imaginar, trinta e sete anos após seu óbito, na sua humildade, era ter sido promovido a homem de relógio.

*Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

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