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Da faculdade, um colega

De vaidade não carregava nenhum saco nem mochila, a não ser de bom nadador, com o mérito de ter ido de Aracaju a Barra dos Coqueiros no nada, arrebatando um troféu, que fez entrega a diretoria do Itabaiana

Vladimir Souza Carvalho

Publicado: 14/10/2026 às 07:55

A amizade é uma relação milenar/Crédito: Pexels

A amizade é uma relação milenar (Crédito: Pexels)

Por Vladimir Souza Carvalho*

Começo pelo nome pomposo: João Emílio Santa Rita Dantas, o que o deixava cheio de brios: nome de embaixador. E apontava para um colega: o nome e o apelido de família – Fulano dos Santos. A diferença, ora. Mas, tudo na molecada, digamos assim. De vaidade não carregava nenhum saco nem mochila, a não ser de bom nadador, com o mérito de ter ido de Aracaju a Barra dos Coqueiros no nada, arrebatando um troféu, que fez entrega a diretoria do Itabaiana.

Fez parte da minha turma, de 1969 a 1973, ainda no prédio da Rua da Frente. Não perdia uma oportunidade para filosofar, entendido como forma de ironizar um fato, de chacoalhar um colega, tudo sem descer a ofensa, leveza pura, brincadeira despida de maldade. Na aula, quem sentasse ao seu lado, ante a explicação dada pelo professor, perguntava ao vizinho: está entendendo? E ante a resposta positiva, o arremate: então, no recreio, você me explica.

Uma memória fabulosa. Numa prova de direito civil, o professor sapecou-lhe um zero, com a explicação de ter colado. Não adiantou as justificativas que tinha memorizado o texto correspondente a matéria. E era verdade. E, para demonstrar, começava a recitar todo o ponto. Foi a única vez que o vi triste, a reclamar da injustiça, reiterando a queixa. O zero não alterou sua aprovação. Tinha notas altas que lhe garantiram passar para o ano seguinte.

Um colega nosso era professor de turmas novas, e, em plena aula, de costas para o corredor, João Emílio remeteu um aviãozinho de papel, que ficou estagnado no seu pouco cabelo, demorando a ser percebido. Hilária a cena. Muito riso. Na sala, continuando a “perseguição”, desenhou um menino nu, com aquilo avantajado, colocando uma legenda: Fulano, em criança, também tirava retrato nu. Nenhuma reclamação da vítima. Só fazia rir, um riso quase santo.

Algum tempo atrás, uma colega dos bancos da faculdade me informou que João Emílio tinha falecido. Não sabia explicar direito o motivo, casando o óbito com problemas de diabetes, deixando a dúvida no ar. Foi mais uma baixa na turma, que, a esta altura, acredito, mais da metade já se foi, tornando menor o número dos sobreviventes. A notícia me fez voltar aos tempos da faculdade, deixando vir à tona as alegres presepadas de João Emílio. Segurei o riso.

Vladimir Souza Carvalho é membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras*

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