Estação Crepúsculo
Ser idoso não é destino para os fracos. Sobretudo quando o objetivo não é ganhar mais dinheiro, mas apenas ter um pouco de paz. De dignidade. De um mínimo qualidade de vida nos dias sobrantes da longa jornada
Publicado: 07/09/2026 às 09:59
Idosos praticando exercício (Divulgação)
Certa vez, uma repórter perguntou a um modesto agricultor o que era preciso fazer para chegar aos 90 anos de idade. E ele respondeu de pronto, com cortante simplicidade:
— Basta não morrer.
Pois é, caro leitor. Para alcançar a velhice, é preciso viver. Ou, no mínimo, sobreviver. E atrevo-me a acrescentar: é preciso ser forte. Corajosamente forte.
Ser idoso não é destino para os fracos. Sobretudo quando o objetivo não é ganhar mais dinheiro, mas apenas ter um pouco de paz. De dignidade. De um mínimo qualidade de vida nos dias sobrantes da longa jornada.
O idoso precisa ser forte porque não carrega apenas o peso dos anos. A insegurança dos passos. O ranger dolorido dos ossos gastos. O mofo de antigas decepções. Ou o gosto amargo dos desenganos. Traz também o peso árido da subsistência, transformada em conflito diário. De um lado, a precariedade de uma aposentadoria injusta e aviltante. Do outro, a voracidade das muitas contas a pagar — que não envelhecem nem se cansam de chegar.
Na idade dita “prateada”, multiplicam-se os gastos. Nunca a “prata”. Remédios cada vez mais caros sustentam o pulsar de um coração vacilante. Somam-se a isso as despesas com cuidadoras, fisioterapeutas, planos de saúde e consultas médicas. Estas, cada vez mais difíceis de agendar, porque os irrisórios valores pagos pelas operadoras afastaram dos planos de saúde um grande número de bons profissionais.
Mas, sobretudo, o idoso carrega o peso da solidão. Dias encompridados de ausências e silêncios. Demoradas horas impregnadas de tristeza e melancolia, acompanhadas apenas pelo latir triste e distante de um cão saudoso de seu dono.
Esse penoso sentimento de solidão se faz visita permanente. Transpõe as frias paredes das casas e apartamentos. Senta-se ao lado. E arrasta o idoso para o chão do desânimo ou para o vale sombrio da depressão.
Lentamente, sua autonomia se esvai. De forma silenciosa e persistente. Depender de filhos e netos torna-se o novo normal — para quem tem a felicidade de tê-los por perto. Quem não a tem, sofre ainda mais. Passa a depender da boa vontade de amigos ou da ajuda de estranhos. Até as tarefas mais banais viram travessias por sombrios labirintos.
Marcar uma simples consulta torna-se um teste desumano de paciência. É que a modernidade ergueu um insensível muro digital. Sistemas automatizados e vozes sintéticas ignoram a vista cansada, as mãos trêmulas, a perplexidade diante de telas confusas. Para a máquina fria e distante, a fragilidade humana é apenas um ruído na linha.
A mesma dependência incômoda se repete na rotina do pagamento de boletos, no emaranhado de logins, senhas e códigos exigidos pelos bancos, e no medo constante dos abutres digitais, que espreitam, dia e noite, suas parcas economias.
Para atravessar esse deserto, insisto: é preciso uma força quase sobrenatural. O idoso precisa buscar, no fundo da alma, a chama acesa de uma lâmpada antiga. Só assim continuará a caminhar pelo terreno pedregoso do seu crepúsculo.
E seguir em frente.
A passos lentos, caminhar rumo ao pôr do sol, levando consigo as lembranças dos momentos vividos, as ausências sentidas e a dignidade que ainda lhe resta.
Até que, um dia, sem ruído nem alarde, a tela da vida suavemente se apague. E surja, lá no fundo do palco, luminosa e definitiva, uma derradeira palavra: “Fim”.