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Operação Condor: há 50 anos, um filhote da Guerra Fria ameaçava a redemocratização na América do Sul

A Operação Condor se notabilizou como uma das expressões mais cruas da forma como a lógica da Guerra Fria conseguiu se expandir por boa parte do globo

Sérgio Montenegro Filho

Publicado: 15/08/2026 às 12:13

Artigo de opinião/Magnific

Artigo de opinião (Magnific)

A articulação entre ditaduras de países da América do Sul em meados dos anos 1970, batizada de Operação Condor, não representou simplesmente uma engrenagem repressiva a mais, criada para perseguir opositores políticos – socialistas, comunistas, sindicalistas e democratas – que buscavam refúgio em países vizinhos. A estratégia se notabilizou, na realidade, como uma das expressões mais cruas da forma como a lógica da Guerra Fria, travada, à época, entre Estados Unidos e União Soviética, conseguiu se expandir por boa parte do globo, transformando alguns países em verdadeiros laboratórios de violência política.

Sob a justificativa de manutenção da “segurança nacional”, regimes de exceção instalados em seis países da América do Sul se uniram na perseguição aos opositores, para além das suas próprias fronteiras, em uma aliança que ignorou solenemente soberanias nacionais e os direitos humanos. A tal operação implicava em um regime de cooperação entre serviços secretos, com sequestros internacionais, tortura e assassinatos. O resultado foi um continente marcado por desaparecimentos, exílios forçados e o medo instituído como instrumento de política de Estado.

Na última entrevista concedida pelo ex-governador Miguel Arraes antes da sua internação hospitalar, em 17 de junho de 2005 – que culminaria com seu falecimento no dia 13 de agosto do mesmo ano – ele revelou detalhes até então desconhecidos pela maioria dos brasileiros, inclusive jornalistas, historiadores e sociólogos. A entrevista de Arraes, concedida a este jornalista, juntamente com o colega Paulo Sérgio Scarpa, já falecido – ambos, à época, repórteres do Jornal do Commercio – além do sociólogo Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), está publicada na íntegra no livro A Nova República: visões da Redemocratização, lançado em 2006.

Entre as declarações inéditas, Miguel Arraes corrobora a tese de que era impossível dissociar a Operação Condor da influência direta dos EUA sobre os países do terceiro mundo ou – se assim desejarmos chamá-los – países “em desenvolvimento”. Ainda que Washington jamais tenha admitido oficialmente sua participação, a presença e certos diálogos travados pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon – conhecido pela estrita obediência à linha dura estabelecida pelos EUA nas operações “anticomunistas” – indicavam o contrário. Uma dessas conversas aconteceu exatamente no gabinete do então governador Miguel Arraes, no início de 1964, pouco antes do desfecho do golpe militar que o depôs do poder.

Na entrevista, Arraes revela, por exemplo, ter sido procurado por agentes do serviço secreto da Argélia, país onde estava exilado, que o comunicaram sobre os planos dos generais para assassinar o ex-governador Leonel Brizola, exilado no Uruguai. Os agentes, inclusive, pediram que a conversa ocorresse do lado de fora da residência, temerosos da existência de escutas escondidas na casa. E recomendaram ao ex-governador pernambucano que avisasse ao colega sobre os riscos que estaria correndo. Arraes precisou ir até Paris, por conta das dificuldades de comunicação àquela época, para se comunicar com Brizola.

Além de histórias como essa, diversos documentos sobre a Operação Condor vieram a ser revelados ao longo das últimas décadas, comprovando o apoio indireto dos norteamericanos, que inclusive teriam oferecido às forças locais um treinamento especializado e tecnologias modernas de vigilância. Ao mesmo tempo, o governo dos EUA difundia a legitimação ideológica do discurso de que qualquer voz dissonante ou contrária ao regime de exceção teria capacidade de se propagar como ameaça e, portanto, deveria ser tratada como inimiga e, se possível, eliminada. A retórica anticomunista, aliás, serviu como justificativa para práticas que, na verdade, tinham o objetivo de sufocar qualquer projeto de transformação social que ameaçasse levar algum desses países à redemocratização.

O impacto da Operação Condor no Cone Sul do nosso continente terminou se mostrando devastador. Movimentos sindicais, organizações estudantis, partidos de esquerda e até setores da Igreja tornaram-se alvos de perseguições. O impacto final da investida foi estimado entre 60 e 80 mil mortos ou desaparecidos e mais de 400 mil presos políticos. A redemocratização estava definitivamente adiada, e a cultura política da região terminou marcada pela desconfiança e pela censura.

A Operação Condor não apenas buscava a eliminação das “ameaças”; ela também tentou apagar ideias e interditar futuros possíveis. Nesse sentido, pode-se afirmar que, de certa forma, foi bem-sucedida, devido ao fato de ter conseguido prolongar a duração de regimes autoritários que se sustentavam pelo terror nos países da América do Sul.

Revisitar esses acontecimentos, atualmente de maneira bem mais detalhada, após diversas pesquisas, é mais que um simples exercício de memória. Serve como alerta de que a cooperação entre ditaduras de países vizinhos é uma prova de que o autoritarismo pode agir de forma sofisticada e transnacional, com a capacidade de manter a democracia fragilizada, abrindo espaço para justificativas perigosas, sempre em nome da ordem e da segurança nacional.

Passados cerca de 50 anos, a América do Sul ainda carrega cicatrizes daquele período sombrio, e o desafio que nos é colocado na atualidade é impedir que o medo volte a ser usado como ferramenta de governo. Afinal, a Operação Condor era, de fato, um filhote da Guerra Fria, mas também representava um projeto político consciente, que escolheu a violência como método e a supressão da liberdade como objetivo. Ao lembrar suas vítimas, reafirmamos que a democracia não é simplesmente mais um modelo de regime de governo; é uma conquista que precisa ser cultivada e defendida diariamente contra aqueles que, ontem e hoje, seguem acreditando que o domínio do poder vale mais do que a vida humana.

Sérgio Montenegro Filho - Jornalista, mestre em comunicação política e consultor de mídia

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