Elogio a requinta
Nos meus tempos de trompista e trompetista na Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, ninguém tocava requinta
Publicado: 05/08/2026 às 07:25
Trompete (Freepik)
Nos meus tempos de trompista e trompetista na Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, ninguém tocava requinta. O último, Airton, já não frequentava os ensaios, a ausência se tornando notada, até que Antônio Melo mandou buscar o instrumento na sua casa. Fui o encarregado da diligência. Não sei, nos dias de hoje, mais de meio século passado, se a requinta foi escolhida por algum músico e faz parte da galeria dos músicos das duas bandas.
Distingue-se a a requinta pelo tamanho. Dos instrumentos de palheta é o menor. Cotejado com a tuba, por exemplo, a diferença é mais acentuada que a de Golias para Davi. O gigante e o anão talvez se enquadrasse melhor. Independentemente do fator tamanho, a requinta se destaca, pelo menos, em nível de Itabaiana (o leitor vai perdoar o meu itabaianismo). E, no decurso de mais de um século, é o único instrumento que se filiou ao nome do tocador, façanha que nenhum outro conseguiu. Antônio Melo tocou sax tenor até quando um AVC lhe tirou a força das pernas. Quando a banda estava em recesso, por falta de músicos, o velho mestre ia com seu instrumento para praça onde morava, e, sozinho, o pé no banco, se esbaldava. Não ficou conhecido, por exemplo, como Antônio Melo do sax soprano. Nem seu Néu, que permaneceu fiel ao sax alto, depois de uma temporada com o sax soprano. Seu Justino, na tuba, não incorporou o nome do instrumento no seu. Idêntica situação ocorreu com os demais músicos.
Dois tocadores de requinta a adotaram no nome. O primeiro e mais conhecido, José Olynto de Oliveira. Apelidado de Zezé, para distinguir dos demais Zezé, passou a ser Zezé da Requinta. Mesmo depois de afastado das atividades musicais, o apelido continuou vivo, se incorporando assim a sua história e a da banda, como músico, compositor e maestro. O outro, que, menino, vi integrá-la, Airton, era, nos naqueles velhos tempos, conhecido como Airton Requinta, ou seja, Airton que toca requinta. É certo que o tempo cortando os laços com a banda, apagou o Requinta de seu nome. Entre os que assim o conheceram, como é o meu caso, continuou sendo Airton Requinta. Quiçá a façanha seja da requinta, com mais poderes que os demais, que lhes são superiores em tamanho. Explicado: tamanho não é documento. Um exemplo ímpar.
*Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras