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A gratidão paga a conta

A filosofia popular diz que "só devemos gratidão a Deus", verdade absoluta se entendemos que todas as conquistas vêm dEle

Rogerio Freitas*

Publicado: 28/07/2026 às 10:00

Gratidão /Freepik

Gratidão (Freepik)

A filosofia popular diz que “só devemos gratidão a Deus”, verdade absoluta se entendemos que todas as conquistas vêm dEle. Como pontuou o atleta Cristiano Ronaldo: “Todos os domingos vou à igreja para agradecer a Deus, pois tudo que consegui vem Dele”. Esse reconhecimento expressa a dimensão desse sentimento nobre.


Profissionalmente, sou diretor de uma fundação filantrópica sem fins lucrativos no Recife/PE, dedicada à reabilitação e oftalmologia. Pelo INFOSUS, é o maior serviço oftalmológico filantrópico da América Latina, o que cristaliza a gratidão como força transformadora.


Fazer filantropia em saúde no Brasil é um desafio, sobretudo com as tabelas do SUS. A defasagem dos valores de 1988 estrangula o crescimento e amplia filas. Prazos cirúrgicos estendidos causam prejuízos à população de baixa renda. Mesmo assim, existem ilhas de excelência comprometidas com a sociedade, como a Fundação Altino Ventura (FAV).


Buscando a melhoria contínua, participei da iniciativa da ROCHE com a mentoria Olhar 360, realizada pela CONECTA EXP. O objetivo foi transformar vivências dos usuários em inovação. Com os mentores Eduardo Barros e William Pereira, mergulhamos nas realidades do nosso público.


Ao lidar com pacientes de Pernambuco, vindos do interior e com baixo nível socioeconômico, deparamo-nos com vulnerabilidades. Ficou evidente que essas pessoas jamais teriam acesso à saúde ocular se a instituição não existisse.


Entender esse universo e equilibrar a missão social com recursos limitados é um compromisso diário. A pesquisa trouxe visões reveladoras e quebrou o tabu de que o paciente humilde não teria maturidade digital: 90% dos entrevistados apresentaram bom acesso e domínio das ferramentas de comunicação.


Dados demográficos e clínicos: 76% dos entrevistados foram mulheres, 62% pardas, 72% com catarata, 72% da Região Metropolitana do Recife e 95% acima dos 55 anos.
Analisamos cinco categorias: dificuldades pessoais, acesso, tempo de espera, satisfação médica e gratidão. Com triangulação de olhares e saturação qualitativa, os dados se entrelaçaram. Chamou atenção 60% dos pacientes relatarem prejuízos na leitura bíblica cotidiana, evidenciando o impacto da visão na vida espiritual.


Além disso, 79% demonstraram convicção na cura pelos médicos da Fundação, fruto da empatia do corpo clínico. Identificamos o receio de perder a vaga na fila ou de exames vencerem, medos que derivam da alta confiança na instituição.


O achado mais marcante foi o unânime sentimento de gratidão. Nem a espera nem os entraves tiraram o brilho do vínculo com a FAV; muitos, emocionados, sentiam-se agraciados além do que julgavam merecer.


Na passagem bíblica em que Jesus cura dez leprosos e apenas um retorna para agradecer, vemos a raridade do reconhecimento. Encontrar unanimidade na gratidão por serviços gratuitos é um marco extraordinário.


Esse sentimento revigora nossos planejamentos para expandir o acesso com resolutividade. Afinal, a gratidão já nos pagou a conta de todos. Continuaremos na busca por um SUS mais humano, inovador e transformador.

 

*Diretor de Operações da Fundação Altino Ventura (FAV) – Recife/PE

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