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Flávio Bolsonaro perdeu a noção do perigo

O falecido Raul Jungmann, Ministro da Defesa do governo Michel Temer, em março de 2018, durante um almoço comigo, poucas semanas após a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, afirmou que os estudos realizados à época apontavam que o crime organizado naquele estado tinha como braço político a família Bolsonaro

Alexandre Rands Barros

Publicado: 27/07/2026 às 07:47

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou, nesta quarta-feira (1), de encontro com lideranças femininas/Fotográfo/Agência Brasil

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou, nesta quarta-feira (1), de encontro com lideranças femininas (Fotográfo/Agência Brasil)

O falecido Raul Jungmann, Ministro da Defesa do governo Michel Temer, em março de 2018, durante um almoço comigo, poucas semanas após a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, afirmou que os estudos realizados à época apontavam que o crime organizado naquele estado tinha como braço político a família Bolsonaro. O pai, Jair, era então deputado federal, e Flávio, deputado estadual. Segundo ele, era evidente que facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) não sobreviveriam sem apoio político. A família Bolsonaro seria esse braço para essa facção criminosa e para as milícias. Naquele período, o Rio de Janeiro já estava tomado pelo crime organizado, embora ainda sem o nível de controle social que possui hoje.

As evidências até então mostravam uma grande aproximação de Flávio Bolsonaro com criminosos ligados ao Comando Vermelho, que atualmente está bem integrado às milícias. Os últimos presos nas operações de combate ao crime do CV têm fortes relações com Flávio Bolsonaro. A condecoração ao miliciano Adriano da Nóbrega é um fato conhecido e bem documentado. Raimunda Veras Magalhães (mãe de Adriano da Nóbrega) e Danielle Mendonça da Costa Nóbrega (esposa) foram nomeadas como assessoras no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Além disso, ele também mantinha relação estreita com Fabrício Queiroz, igualmente ligado às milícias. Suas conexões com o deputado estadual do Rio de Janeiro TH Joias também estão bem documentadas pela imprensa e pela Polícia Federal. Este último foi preso sob acusação de organização criminosa, tráfico interestadual de armas e drogas, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, contrabando, evasão de divisas e obstrução das investigações.

Rodrigo Bacellar, deputado estadual pelo PL entre 2022 e 2024, migrou para o União Brasil para se candidatar por esse partido em 2026. A ideia era garantir o apoio político da legenda à família Bolsonaro no Rio de Janeiro. Ele foi preso pela Polícia Federal em dezembro de 2025, acusado de vazar informações sigilosas para proteger o deputado TH Joias, ligado ao CV. Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual, por sua vez, foi apontado como braço político de um grupo criminoso que desviou R$ 7,6 bilhões em operações fraudulentas em postos de combustíveis. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi o principal articulador da candidatura dele ao Senado em 2026 e chegou a colocar sua mãe, Rogéria Bolsonaro, como suplente na chapa de Canella.

Sendo isso verdade, o fato de Flávio Bolsonaro ter aplaudido e incentivado o governo dos Estados Unidos da América (EUA) a classificar o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como facções terroristas foi uma atitude de alto risco. Ele não considerou a hipótese de Trump e os Republicanos eventualmente saírem do poder e os democratas aprofundarem as investigações sobre envolvidos com essas facções, descobrindo sua relação com elas. Nesse caso, o novo governo não teria razão para aliviar sua situação. Parece que ele perdeu a noção do perigo. Está utilizando tática semelhante à que empregou no caso do Banco Master e Daniel Vorcaro: clamou por investigações para passar a ideia de que não tinha relação com o escândalo, mas depois se notou que os vínculos eram bastante fortes. O mesmo pode estar acontecendo com o desenrolar das investigações sobre o crime organizado no Rio de Janeiro.

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