Compreender as compulsões é parte do cuidado em saúde mental
A dificuldade de resistir a determinados impulsos pode ultrapassar o campo dos hábitos cotidianos e passar a interferir diretamente na saúde mental
Publicado: 16/07/2026 às 09:44
(Magnific)
Por Alberto Gorayeb
Psiquiatra do IMIP
Durante muito tempo, comportamentos compulsivos foram vistos apenas como “falta de controle”, exagero ou ausência de disciplina. No entanto, a psiquiatria já compreende que compulsões envolvem mecanismos psíquicos complexos, frequentemente relacionados ao sofrimento emocional e à dificuldade de lidar com tensões internas.
A dificuldade de resistir a determinados impulsos, seja para comer, comprar, jogar, usar substâncias ou permanecer constantemente conectado às redes sociais, pode ultrapassar o campo dos hábitos cotidianos e passar a interferir diretamente na saúde mental.
É importante diferenciar impulso e compulsão. Ambos envolvem falhas na capacidade de controle, mas funcionam de maneiras distintas. O impulso costuma acontecer antes mesmo que a pessoa consiga organizar racionalmente a ação. Já a compulsão está associada à incapacidade de interromper um comportamento, mesmo quando ele já produz prejuízo, culpa ou sofrimento.
Em muitos casos, a compulsão funciona dentro de um ciclo de tensão e alívio. A pessoa experimenta um desconforto interno crescente, seja ansiedade ou angústia, e encontra naquele comportamento uma forma rápida de aliviar temporariamente esse mal-estar. O problema é que esse alívio costuma ser passageiro. Pouco depois, surgem sentimentos de culpa, vergonha ou frustração, que acabam alimentando novamente o ciclo compulsivo.
Vivemos hoje em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos e pela oferta permanente de mecanismos de recompensa imediata. Isso ajuda a explicar por que determinados comportamentos compulsivos têm se tornado mais frequentes e mais naturalizados socialmente.
As compulsões podem aparecer de formas bem diferentes. Entre as manifestações mais comuns estão a compulsão alimentar, as compras excessivas, o jogo patológico e o uso abusivo de redes sociais. Em parte dos casos, esses comportamentos também estão associados a outros transtornos mentais, como ansiedade, depressão, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e outros transtornos do neurodesenvolvimento.
Por isso, o tratamento não deve se limitar ao controle isolado do comportamento. É necessário compreender o que sustenta aquele sofrimento. Existem abordagens terapêuticas validadas que envolvem psicoterapia, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, acompanhamento medicamentoso. Mas o cuidado só faz sentido quando busca tratar a origem do adoecimento, e não apenas silenciar sintomas.
Outro ponto importante é combater a ideia de que compulsão representa fraqueza moral, compreensão esta que aumenta o sofrimento e dificulta a procura por ajuda. Muitas pessoas convivem durante anos com sintomas compulsivos sem reconhecer que estão diante de uma condição que pode e deve ser tratada.
O primeiro passo é observar quando determinado comportamento deixa de ser escolha e passa a produzir perda de controle e prejuízo emocional, financeiro, social ou afetivo. Nesses casos, procurar ajuda profissional é fundamental. A rede pública de saúde, por meio das unidades básicas e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), oferece portas de entrada importantes para acolhimento e acompanhamento.
Falar sobre compulsão sem julgamento talvez seja uma das formas mais necessárias de cuidado atualmente. Quanto mais ampliamos nosso entendimento sobre saúde mental, mais pessoas conseguem reconhecer o próprio sofrimento e buscar apoio antes que ele se torne ainda mais silencioso.