Transição energética: paradoxos ou modus operandi?
"Transição energética" é um termo do léxico ambiental que, assim como "desenvolvimento sustentável" e "reciclagem", foi popularizado pela mídia e pela educação formal
Tarcísio Augusto Alves da Silva
Publicado: 03/07/2026 às 08:48
Transição energética (Foto: Magnific)
"Transição energética" é um termo do léxico ambiental que, assim como "desenvolvimento sustentável" e "reciclagem", foi popularizado pela mídia e pela educação formal. Contudo, essa difusão massiva raramente é acompanhada de uma crítica que desvele as ambivalências históricas e políticas do conceito. É por essa razão que a experiência da transição nas sociedades capitalistas conduziu ao surgimento de expressões como "Transição Energética Corporativa" ou "Transação Energética", utilizadas para apontar o interesse econômico que se esconde por trás da narrativa de preocupações ambientais.
Assim, ainda que a transição energética pareça paradoxal à primeira vista, por mitigar a emissão de gases poluentes ao mesmo tempo em que amplia injustiças climáticas, essa contradição se revela falsa quando compreendemos sua subordinação à lógica do lucro. O que se supõe ser um paradoxo é, na verdade, o próprio modus operandi do processo.
Os dados publicados no último dia 3 de junho de 2026 no Relatório do Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025), pelo Ministério da Minas e Energia (MME), demonstram o avanço das fontes renováveis (hidrelétrica, biomassa, eólica e solar) na matriz elétrica brasileira. Particularmente, a energia solar e eólica apresentaram um crescimento de 24,7% e 8,2%, respectivamente, na oferta interna de energia elétrica, valores para nenhum entusiasta da “energia limpa”, “verde” e “renovável” desprezar.
Observando o setor de energia, como um todo, e sua relação com a emissão de gases de efeito estufa, um dado curioso é apresentado: O perfil de emissões do Brasil em 2022 confirma que a agropecuária, a mudança do uso da terra e o desmatamento foram os grandes vilões do efeito estufa, sendo responsáveis por cerca de 70% das emissões, enquanto a energia representou 20,5% do volume total.
É fundamental registrar que a produção de energia renovável não ocorre no vácuo: ela demanda território e depende diretamente do uso da terra e, em muitos casos, do mar. Por isso, no mundo todo essa energia faz apologia à baixa emissão de carbono, mas convive com severas denúncias de impactos socioambientais, contradizendo o discurso de sustentabilidade promovido por governos e corporações. Existem muitas externalidades negativas (recorrendo ao jargão econômico) que demonstram que a “transição energética” não pode ser analisada de forma isolada.
Embora no caso brasileiro a energia tenha representado, em 2022, 20,5% do volume total de emissão de gases do efeito estufa, os dados sobre o desmatamento apresentados pelo Relatório Anual Desmatamento no Brasil 2026 (MAPbiomas), colocam as energias renováveis como o terceiro maior vetor de desmatamento entre 2019-2025, indicando que o percentual de emissão deste setor tende a ser muito maior do que a contabilizada na geração de eletricidade.
Se a maior parte das emissões de gases de efeito estufa do país ocorre devido ao desmatamento e à mudança no uso da terra, permitir que a expansão de energias renováveis e biocombustíveis degrade ecossistemas nativos cria uma conta climática difícil de fechar: reduzem-se emissões em uma ponta, aumentando-as na outra. Longe de ser um paradoxo, essa dinâmica é o núcleo da lógica corporativa que hoje comanda a transição energética.