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Museu é passado, presente e futuro

A cada ano, são 365 dias de Frevo que não atendem apenas ao período sazonal do ciclo carnavalesco

Luciana Félix

Publicado: 23/05/2026 às 11:59

Paço do Frevo/Foto: Divulgação

Paço do Frevo (Foto: Divulgação)

Em tempos regidos por instabilidades sociais e políticas em todo o mundo, os museus são espaços de refúgio, de encontros e de preservação das memórias e histórias que os habitam, contribuindo para a construção de uma sociedade soberana e democrática. Reforçando esse papel, nesta semana, de 18 a 24 de maio de 2026, é realizada a 24ª Semana Nacional de Museus, iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) em comemoração ao Dia Internacional dos Museus, celebrado em 18 de maio em todo o mundo.

Com o tema “Museus unindo um mundo dividido”, a semana mobiliza as instituições museais no Brasil com atividades que valorizam a preservação do patrimônio, o direito à memória e a cidadania. A ideia é propor uma reflexão sobre o papel dos museus em um contexto marcado por desigualdades persistentes, conflitos e disputas de narrativas, destacando essas instituições como agentes ativos na construção de uma sociedade mais justa e democrática.

No Paço do Frevo, museu da Prefeitura do Recife gerido pelo IDG - Instituto de Desenvolvimento e Gestão, que em 2026 completou 12 anos, seguimos na missão de salvaguardar esse Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (Iphan) e da Humanidade (Unesco) nos seus formatos diversos. Lá, trabalhamos para que o equipamento seja um espaço para a preservação, formação e difusão do Frevo durante todo o ano. Além disso, mantemos um empenho constante para que seja um local de acolhimento das pessoas que passam pelo museu todos os dias — visitantes, turistas, brincantes e fazedores da comunidade do Frevo.

O Frevo tem, nas suas raízes e na sua essência, o espírito insurgente de uma manifestação cultural popular que precisou resistir para existir. Desde o seu início, nas décadas finais do século 19, as mulheres e homens ligados a segmentos diversos das camadas populares do Recife foram os responsáveis por dar vida e forma ao que hoje nos chega como um dos maiores expoentes da cultura pernambucana. Ao longo das décadas, até esse ano de 2026 no qual estamos, algumas histórias e memórias se foram, mas há muito o que ser preservado e difundido, dando base, sustentação e força ao desenvolvimento dos futuros da manifestação popular.

É nesse cenário que o Paço do Frevo se constrói como museu e Centro de Referência em Salvaguarda do Frevo, certificado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2017. Por meio do entrelaçamento das histórias conhecidas e também das invisibilizadas, buscamos garantir o direito à memória dessa valiosa porção da história fundante do Recife, de Pernambuco e do seu Carnaval, tão arraigados a parte da nossa identidade cultural que é difundida também no Brasil e no mundo. No Paço do Frevo, as exposições e mostras são cor, som e movimento, como o Frevo o é nas ruas.

No Paço, ser museu é fomentar um espaço possibilitador de novas realidades em territórios físicos, simbólicos e também imaginados. A cada ano, são 365 dias de Frevo que não atendem apenas ao período restrito e sazonal do ciclo carnavalesco. Como museu, somos exposições e mostras, mas também somos formações, debates, cursos e apresentações artísticas que dialogam com a dança, a música, as cores e as pessoas que alimentam e fortalecem esse patrimônio cultural todos os dias.

Fazer museu, salvaguardar memórias e reproduzir saberes não é viver de passado. Ao menos, não do passado que está encerrado e desligado do presente. É alimentar novas histórias com uma base sólida essencial para a criação de novos mundos, futuros consistentes e, se forem como o Frevo, em constante movimento.

Luciana Félix, diretora do Paço do Frevo e do IDG em Pernambuco.

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