Quando a misoginia começa na adolescência
A misoginia deixou de ser um problema apenas dos adultos. Ela está sendo aprendida na adolescência. E os números mostram que isso já está produzindo consequências
Publicado: 29/07/2026 às 14:11
A adolescência é uma fase de construção da personalidade (Imagem Gerada por IA)
A misoginia deixou de ser um problema apenas dos adultos. Ela está sendo aprendida na adolescência. E os números mostram que isso já está produzindo consequências. Segundo a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, a violência contra meninas e mulheres praticada por adolescentes aumentou 620%. Ao mesmo tempo, professores relatam a presença cada vez mais frequente de discursos misóginos dentro das salas de aula. Não estamos diante de casos isolados.
Estamos assistindo à formação de uma geração exposta, desde cedo, a conteúdos que transformam preconceito em identidade e violência em demonstração de poder.
A adolescência é uma fase de construção da personalidade. Quando jovens passam horas consumindo conteúdos que apresentam as mulheres como inferiores, manipuladoras ou responsáveis pelos fracassos masculinos, essas ideias podem ser incorporadas como verdades. Os algoritmos das redes sociais reforçam esse processo ao recomendar, continuamente, conteúdos semelhantes.
A misoginia raramente começa com uma agressão física. Ela costuma surgir em piadas, humilhações, desqualificação das meninas, incentivo ao controle dos relacionamentos e normalização da violência psicológica. Quando esses comportamentos deixam de ser questionados, podem evoluir para agressões cada vez mais graves.
Os dados mostram que esse cenário já afeta a vida das adolescentes. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, revelou que 26% das meninas entre 13 e 17 anos afirmam já ter sofrido assédio ou violência sexual, mais que o dobro do registrado entre os meninos.
A escola tem um papel importante, mas não pode enfrentar esse desafio sozinha. Famílias, plataformas digitais, instituições públicas e toda a sociedade precisam assumir sua responsabilidade.
O direito de estar acompanhada nas consultas
Muitas mulheres ainda não sabem, mas a Lei nº 14.737/2023 garante o direito de serem acompanhadas por uma pessoa de sua escolha durante consultas, exames e procedimentos de saúde, tanto na rede pública quanto na privada. Essa presença fortalece a autonomia da paciente, aumenta a sensação de segurança e ajuda a prevenir situações de constrangimento, abuso ou violência.
O acompanhante não interfere na atuação do profissional de saúde. Ao contrário, contribui para uma relação mais transparente entre paciente e equipe médica.
Se esse direito for negado, a mulher pode denunciar o descumprimento pelo telefone 136 (Disque Saúde).
Conhecer os próprios direitos é uma forma de proteção. E um direito só cumpre sua função quando é efetivamente respeitado.
5% na aposentadoria do INSS para mulheres com filhos
A Comissão da Câmara aprovou um projeto que prevê um adicional de 5% na aposentadoria do INSS para mulheres com filhos. A proposta ainda precisa passar por outras etapas no Congresso para virar lei, mas reacende um debate importante.
A maternidade produz impactos reais na vida profissional das mulheres. Muitas interrompem a carreira, reduzem a jornada, recusam oportunidades ou enfrentam dificuldades para retornar ao mercado de trabalho. Essa realidade tem reflexos diretos na renda e, futuramente, na aposentadoria.
Mais do que um benefício financeiro, a discussão envolve o reconhecimento de que cuidar também é trabalho e gera consequências econômicas que não podem ser ignoradas. Valorizar a maternidade é reconhecer uma contribuição essencial para toda a sociedade.