Diálogos
Nesta Coluna, o escritor Raimundo Carrero comenta sobre o livro "Histórias Miseráveis", de José Castello
Publicado: 30/05/2026 às 06:00
Raimundo Carrero (Marina Torres/DP Foto)
-Vamos dormir, meu filho?
Ouvia meu pai perguntar todas as noites, aí pelas 23h, convidando-me a apagar a luz no seu jeito sincero, leve, hábil, para não me incomodar. Deitado na rede, eu levantava o braço para chegar ao interruptor que balançava sobre meu peito, pendurado num fio branco que descia desde o teto. Ele sabia que eu estivera lendo, mas preferia não me incomodar, sugerindo a hora do sono. Dormíamos no mesmo quarto desde a morte da minha mãe, ele na cama e eu na rede, sempre ressonando alto de forma linear sem, no entanto, incomodar meu sono que permanecia em estado de vigília.
“Então eu me enfiava debaixo das cobertas e, com a luz de minha lanterna, como se estivesse em uma caverna, voltava a ler. Aquela camuflagem, em que a lanterna era um objeto salvador, transformava a leitura em uma aventura. Acrescentava a ela um caráter secreto e perigoso. Foi nessa posição de expedicionário, dissimulado sob minha tenda de lã, que li meus primeiros livros”.
Encontro nestes dois breves textos similitudes e diferenças básicas que me levam à análise do novo, atormentador e magnífico livro de José Castello, “Histórias Miseráveis” (Maralto Edições), que revela de forma leve e suave a aventura das primeiras leituras em lugares tão diversos e dispersos envolvendo duas crianças de caracteres definitivamente opostos e de comportamentos nada iguais, mas vivendo situações senão iguais, carregadas de sentido e de aproximação. Na verdade, chamo de diálogo esta técnica complexa da prosa contemporânea. São pais e filhos em lugares diferentes e distantes, mas já adivinhando entre si o caminho que leva à literatura de leitor, ou de criador, com uma lanterna na mão ou deitado numa rede esperando o sono do pai.O primeiro caso aconteceu comigo, aos 10 anos de idade; o segundo está no conto deste novo livro de Castello. Personagens silenciosos, sem uma palavra entre si. Que tipo de diálogo seria este, então? No meu livro “Os Segredos da Ficção”, catalogo cinco tipos de diálogo e aqui chego a mais este, a que chamo de diálogo sem resposta nas minhas anotações. Ismail Kadaré usa isso muito bem.
O que me interessa dizer é que desde as primeiras leituras, a literatura se apresenta como a vida, depois do primeiro golpe de ar, as cenas e os personagens vão surgindo, muitas vezes sem nenhum esforço. Os pais, tanto o de Castello quanto o meu, ocuparam lugares importantes e, daí em diante, muitos outros vão se jogando nas frases, nos parágrafos, nos capítulos, nos contos, nas novelas, nos romances, como disse Machado de Assis nos seus ensaios sobre a arte de escrever ficção: os enfeitiçados, cada um com seus caracteres, expondo suas personalidades, falando muito ou pouco. Aí o Bruxo de Cosme Velho citava o Hamlet, de Shakeaspeare, e a silenciosa Penélope de Ulisses, na “Odisseia”, de Homero.
O livro de contos de Castello é, na verdade, um romance de ótimos personagens desde aqueles pais que me referi no início. É contundente sem perder a elegância. Saboroso, sem deixar de ser dramático, não raro é trágico. Enfim, uma obra-prima.