No Congresso, assombrações custam caro
Emendas suspeitas, Banco Master, INSS. Sob três assombrações e envolto nas tensões pré-eleitorais, o Congresso retoma os trabalhos hoje
Publicado: 10/08/2026 às 06:27
Prédio do Congresso (Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil)
Emendas suspeitas, Banco Master, INSS. Sob três assombrações e envolto nas tensões pré-eleitorais, o Congresso retoma os trabalhos hoje, após ter adiado o fim do recesso para liberar as atenções políticas às convenções partidárias. Serão duas semanas de esforço concentrado antes que as campanhas engulam todas as pautas.
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Pouco tempo, muito risco. Ano eleitoral tem lógica própria. E não costuma se importar com responsabilidade fiscal. Basta lembrar que o ato de despedida para as férias do Congresso foi a aprovação de um pacote que o próprio governo apelidou de pautas-bomba. O alerta do ministério da Fazenda, porém, não impediu o voto dos parlamentares governistas. Custo estimado? R$ 30 bilhões em uma década.
Entre as medidas, foi criado um privilégio para diminuir a idade de aposentadorias, na contramão dos ganhos de expectativa de vida. Uma contra-reforma da previdência. Não pra todo mundo, mas exclusivamente para agentes comunitários de saúde. Obviamente, não tenho nada contra essa categoria tão importante de trabalhadores do SUS. Mas tenho tudo contra a criação e manutenção de privilégios. Afinal, por que temos tanta dificuldade em implementar o velho princípio republicano, e fazer com que a lei seja igual para todos?
Quanto mais perto das urnas, mais o mundo político brinca de ilusionismo. Aumentam a distribuição de bondades, sem nunca dizer quem vai pagar a conta. E a essa altura, você já sabe: pode preparar o seu bolso. Quando se distribuem benefícios sem dizer quem paga por eles, o efeito final é aumento da dívida pública. Em outras palavras: inflação e juros altos corroendo o poder de compra. O governo dá com uma mão, visível, menos do que tira com a outra, mais discreta.
Entre um populismo e o próximo, a conta não fecha. E assim, 8 em cada 10 famílias brasileiras seguem endividadas, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio. Porque quando o próprio governo é o maior endividado do país, não há Desenrola que dê jeito. Nem com duas versões em menos de quatro anos.
Esse impulso de criar novas “bondades” no improviso, sob a pressão das campanhas, aumenta o risco de medidas irresponsáveis que sabotam, desde já, o trabalho do próximo governo em construir equilíbrio fiscal, seja quem for o presidente eleito.
O fato é que a ânsia do Congresso em embalar uma pauta positiva é proporcional ao medo dos parlamentares de verem o seu nome envolvido em investigações. Ou até, quem sabe, aparecer numa foto estranha com gente esquisita, quase sem roupa, dentro de uma piscina.
Mudam os fantasmas, segue um padrão: apropriação privada da coisa pública, o velho patrimonialismo. Não é vício de um só partido, é característica da nossa cultura política. Tema que só seremos capazes de superar se, antes, formos capazes de encarar. Não adianta apagar a luz. O fantasma que ninguém quer ver continua rondando a casa. Cabe ao eleitor decidir se vai continuar de olhos fechados.