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ENTREVISTA

"Marcas jornalísticas exercem papel de "certificadoras da realidade"

Presidente da Associação Nacional dos Jornais disse em entrevista ao Diario de Pernambuco, que os jornais souberam se adaptar à revolução digital nas últimas décadas

Roberto Gazzi

Publicado: 20/05/2026 às 18:43

Marcelo Rech - Presidente da ANJ /ANJ/Divulgação

Marcelo Rech - Presidente da ANJ (ANJ/Divulgação)

O presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Marcelo Rech, defende que o jornalismo profissional se tornou ainda mais essencial diante da fragmentação da informação, das fake news e das manipulações digitais. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, ele afirma que os jornais souberam se adaptar à revolução digital nas últimas três décadas, ampliando alcance e relevância para além do papel. “Os jornais veículos se transformaram em "certificadores da realidade”.

Rech destaca que marcas jornalísticas tradicionais exercem hoje o papel de verificar fatos e contextualizar informações em meio ao excesso de conteúdos das redes sociais. Sobre a Inteligência Artificial (IA), ele avalia que ela representa simultaneamente oportunidade e ameaça: pode acelerar processos e fortalecer o jornalismo investigativo, mas também utiliza conteúdos jornalísticos sem autorização ou remuneração.

Para o dirigente da ANJ, o jornalismo seguirá existindo enquanto houver demanda por confiança, verdade e pluralidade. A ANJ saudou recentemente a volta do Diario de Pernambuco à entidade. "O jornal mais antigo do Brasil tinha de estar na ANJ", disse. 

O DP é o jornal em circulação mais antigo da América Latina. O superintendente do Diario de Pernambuco, Diogo Vital, afirma que o retorno do jornal à ANJ reforça o esforço pela qualificação do conteúdo produzido para os pernambucanos.

Superando crises que vêm desde o começo deste século, o Diario de Pernambuco volta a se associar à entidade. “Estar na ANJ, com sua história de luta pela liberdade e suas ações para a melhoria do jornalismo ajudará no esforço que estamos fazendo para melhorar a qualidade dos conteúdos que produzimos para os
pernambucanos”, diz Diogo Vital, superintendente do Diario de Pernambuco.

 

Confira entrevista completa:

Como você vê o panorama atual dos jornais?

Os jornais foram a primeira atividade econômica a ser disruptada pela internet, há 30 anos.Basta lembrar da importância dos classificados para a sustentabilidade dos jornais. Ou seja, há três décadas, temos aprendido a nos adaptar e a manter a relevância da atividade em todas as frentes de divulgação. Enquanto muitos negócios apenas agora estão sendo impactados pelo digital, os jornais passaram a conviver e até mesmo ampliar seu alcance, ampliando a relevância de seus conteúdos neste novo mundo. O Diario de Pernambuco, por exemplo, pode atender agora a uma ampla camada de usuários que não estão fisicamente no estado. Não é por acaso que o The New York Times chegou a 13 milhões de assinantes. Nos melhores tempos das edições restritas ao papel, ele somava 1,2 milhão de assinantes. O mundo digital é que nos possibilita agora multiplicar por 10 nossa leitura.

As marcas jornalísticas tradicionais ainda são importantes para a informação e formação da sociedade?

São cada vez mais fundamentais. A fragmentação da informação, as versões sem pé nem cabeça que circulam nas redes sociais, as manipulações sofisticadas no mundo digital - tudo isso exige que alguém faça a verificação do que é verdade ou não, em que medida e qual contexto. Essa verificação é a matéria-prima dos veículos de comunicação desde sempre. Então, mais do que apenas apurar os fatos e divulgá-los, o que segue uma missão nobre e importante, os veículos se transformam em certificadores da realidade.

Inteligência Artificial (IA) deve ser encarada como ameaça ou oportunidade para os jornais?

Os dois. De um lado, muitos jornais já usam IA para funções repetitivas ou sem relação direta com a atividade, como traduções e revisões, mas também, por exemplo, para o processamento de grandes quantidades de dados. O que um repórter investigativo levava dias para identificar uma boa IA pode flagrar em poucos segundos. Mas a IA nunca vai substituir o processo basilar de apurar a notícia. Coletar fatos, identificar fenômenos e enxergar para além das aparências seguirá como essência do jornalismo profissional feito por humanos e para humanos. Em contrapartida, os modelos de IA se valem de conteúdos jornalísticos sem autorização e muito menos remuneração. Isso é ilegal e uma ameaça existencial a uma atividade essencial para as comunidades e a democracia. Onde não houver acordos de uso autorizado, veremos cada vez mais ações judiciais de
reparação.

Os jornais vão sobreviver?

Enquanto houver necessidade de confiança, de busca da verdade e de pluralidade, os jornais seguirão existindo. Há muito tempo, já não consideramos os jornais restritos a edições em papel. O impresso é importante e seguirá sendo se assim o quiser o leitor, mas os jornais se converteram em usinas de informação que funcionam 24/7 para atender os públicos nos formatos e momentos em que ele quer ou necessita consumir informações. Estamos no ramo da confiança. Até onde a vista alcança, este será um bem cada vez mais raro e preciso.

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