Laudo aponta lesões no pescoço de PM morta com tiro na cabeça e indica possível desmaio antes do disparo
Segundo peritos, a policial não apresentou sinais de defesa e pode ter desmaiado antes de ser baleada
Publicado: 10/03/2026 às 11:21
Familiares de Gisele Santana contestam a versão apresentada por Geraldo Leite Rosa Neto e pedem investigação por feminicídio (Reprodução/Redes sociais)
A análise necroscópica realizada após a exumação do corpo da policial militar Gisele Santana, que foi encontrada morta em casa com um tiro na cabeça, identificou sinais de agressão no rosto e no pescoço da vítima. De acordo com a avaliação dos peritos, os indícios apontam que ela pode ter perdido a consciência antes de ser atingida pelo disparo, além de não apresentar marcas que indiquem tentativa de defesa. As informações são do portal g1.
O laudo, acessado pela TV Globo, descreve que as lesões observadas são de natureza contundente. O documento afirma ainda que os ferimentos foram provocados "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal", expressão utilizada na perícia para caracterizar marcas de unhas na pele.
O caso
O suposto suicídio da policial militar Gisele Santana, de 32 anos, passou a ser investigado como morte suspeita após familiares relatarem à polícia que ela vivia um relacionamento abusivo. A soldado foi encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava, no Brás, região central de São Paulo.
Segundo parentes, o comportamento de Gisele mudou ao longo do casamento com o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, com quem estava casada desde 2024. Eles afirmam que, após o início da relação, o acesso da família à policial foi gradualmente restringido.
Familiares também apontaram episódios de controle sobre a rotina da policial, como restrições quanto a vestimentas, uso de maquiagem, atividades físicas e convívio social. Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, a tia de Gisele afirmou: “Ele proibia ela de usar salto, de usar roupa e de academia só com ele, de usar batom”.
A versão apresentada pelo marido à polícia sustenta que Gisele teria tirado a própria vida após uma discussão do casal, enquanto ele tomava banho. De acordo com o depoimento, ele ouviu o disparo, saiu do banheiro e encontrou a esposa ferida. A policial chegou a ser socorrida, mas não resistiu.
A família contesta essa narrativa e afirma que Gisele sofria pressão psicológica constante. Segundo os parentes, ela se afastou de amigos e familiares e enfrentava resistência do companheiro ao manifestar o desejo de se separar. Dias antes da morte, a policial teria pedido ajuda ao pai para deixar a residência onde vivia, alegando que não suportava mais a situação.
O advogado da família, José Miguel da Silva Júnior, descreveu o relacionamento como "doentio" e marcado por controle excessivo e sentimento de posse, inclusive com tentativas de impedir o contato de Gisele com os parentes. A família também relatou que a filha da policial, de 7 anos, teria presenciado discussões frequentes no ambiente doméstico.
Diante dos relatos, os familiares defendem que o caso seja apurado como feminicídio e não como suicídio.
A investigação está sob responsabilidade da Polícia Civil de São Paulo, que aguarda laudos periciais, como a análise da trajetória do disparo, que pode esclarecer as circunstâncias da morte. Até o momento, a defesa do tenente-coronel não se manifestou.
Suspeitas
Segundo relato de uma vizinha à polícia, um barulho forte foi ouvido por volta das 7h28. A moradora afirmou que acordou após escutar um único disparo vindo do imóvel do casal. O horário chamou a atenção dos investigadores porque a primeira chamada do marido da vítima para os serviços de emergência foi feita cerca de meia hora depois.
Às 7h57, ao telefonar para a Polícia Militar, ele informou que a esposa teria tirado a própria vida.
Poucos minutos mais tarde, às 8h05, ele voltou a procurar socorro, desta vez acionando o Corpo de Bombeiros e relatando que a mulher ainda apresentava sinais de respiração. As equipes de atendimento chegaram ao endereço às 8h13.
Um dos socorristas que participou do atendimento relatou ter estranhado a forma como a cena se apresentava no interior do apartamento. Diante da situação, ele decidiu registrar imagens do local. Conforme contou posteriormente, a arma estava posicionada na mão da vítima de maneira incomum para casos de suicídio que já havia presenciado.
O profissional também relatou que, no momento da chegada das equipes, o sangue já apresentava sinais de coagulação. Além disso, afirmou não ter sido encontrado cartucho de munição no local. Outro detalhe observado foi a ausência de água espalhada pelo imóvel, apesar de o tenente-coronel afirmar que estava tomando banho quando ouviu o disparo.
Outro aspecto que passou a ser analisado pela polícia envolve a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, no prédio naquela mesma manhã.
De acordo com registros de acesso, o magistrado chegou ao edifício por volta das 9h07 e subiu até o apartamento acompanhado do tenente-coronel. Cerca de 11 minutos depois, às 9h18, ele foi visto novamente no corredor do andar.
Pouco tempo depois, aproximadamente às 9h29, Geraldo Neto também deixou o apartamento. Segundo relatos, ele já vestia roupas diferentes e havia tomado banho. Policiais que participaram do atendimento da ocorrência afirmaram ainda que o oficial retornou apresentando um forte cheiro de produto químico.