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INVESTIGAÇÃO

Denúncia aponta uso de fundos ligados a organizações criminosas em esquema de fraudes no Banco Master

Apuração aponta para a existência de um planejamento montado para manipular valores de ativos e fazer com que recursos retornassem ao controle do proprietário da instituição

Diario de Pernambuco

Publicado: 09/01/2026 às 23:05

Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim/Rovena Rosa/Agência Brasil

Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Uma denúncia que partiu do Banco Central ao Ministério Público Federal revelou que ao menos quatro fundos de investimento investigados por vínculos com organizações criminosas teriam sido utilizados em um esquema de fraudes envolvendo o Banco Master. As informações são do g1.

A apuração aponta para a existência de um planejamento montado para manipular valores de ativos e fazer com que recursos retornassem ao controle do proprietário da instituição, Daniel Vorcaro, e de integrantes da diretoria.

As informações indicam que esses fundos faziam parte de uma sequência de operações estruturadas com o objetivo de inflar artificialmente o patrimônio do banco. Segundo o Banco Central, a estratégia consistia em criar uma aparência de solidez financeira, mascarando a real situação econômica da instituição nos meses que antecederam a decretação da liquidação.

Entre os fundos citados na investigação estão veículos administrados pela Reag DTVM, empresa que já foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada para apurar esquemas de lavagem de dinheiro associados à máfia dos combustíveis e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). De acordo com o material encaminhado pelo Banco Central ao MPF, em 17 de novembro, o volume de recursos envolvidos nas transações suspeitas pode alcançar R$ 11,5 bilhões.

O relatório descreve que essas operações teriam sido estruturadas de forma a permitir que ativos de baixa qualidade circulassem dentro do próprio sistema, sempre com valores acima do mercado, até retornarem a fundos ligados ao controlador do banco e a pessoas de sua confiança.

Técnicos do Banco Central detalham que os fundos teriam sido usados como instrumentos para simular aportes de capital no Banco Master. Na prática, o banco concedia empréstimos a empresas que, em seguida, aplicavam os recursos em determinados fundos. Esses fundos, por sua vez, adquiriam ativos de baixíssima liquidez por valores inflados, criando um efeito contábil de fortalecimento patrimonial.

O mecanismo permitia que um mesmo ativo fosse negociado repetidas vezes dentro da estrutura, sempre com aumento artificial de preço. Em um dos exemplos citados na investigação, um título com valor real estimado em R$ 100 poderia ser registrado internamente por R$ 1.000, ampliando de forma fictícia o patrimônio associado à operação.

Trechos da chamada “Notícia de Fatos”, elaborada pelo Banco Central e obtida pelo blog do jornalista Valdo Cruz, apontam indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional praticados por administradores do Banco Master e da Reag. O documento também destaca falhas graves no controle e no gerenciamento de riscos.

Entre julho de 2023 e julho de 2024, o banco realizou operações estruturadas de crédito corporativo que somaram R$ 11,5 bilhões, concentradas em poucos clientes e em desacordo com princípios básicos de seletividade, liquidez e diversificação. Parte dessas operações tinha como garantia fundos de investimento que, em tese, deveriam funcionar como instrumentos de liquidez, o que não se confirmou na prática.

De acordo com os técnicos, a manutenção desses ativos com valores superestimados teria sido deliberada, justamente para evitar reavaliações que revelassem perdas e fragilidades. Os números inflados teriam servido, ainda, para justificar aportes de capital exigidos pela própria autoridade monetária.

Todo esse conjunto de operações e indícios foi incorporado ao processo que culminou na liquidação extrajudicial do conglomerado Master, decretada em novembro pelo Banco Central. A decisão foi baseada na avaliação de que todas as alternativas de solução de mercado haviam sido esgotadas, além da constatação de uma situação econômico-financeira crítica e de irregularidades graves que comprometiam a solvência da instituição.

O caso também chegou ao Tribunal de Contas da União. O ministro Jhonatan de Jesus, relator do processo, permitiu uma inspeção técnica em documentos do Banco Central, mas a medida foi suspensa após manifestações contrárias e a abertura de um procedimento de mediação.

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