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Exibida no Festival do Rio, série recifense ‘Delegado’ concilia humor e ação com identidade própria

Criada e dirigida por Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, com produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, série teve seus primeiros episódios exibidos no festival carioca e estreia no dia 30 de outubro no Canal Brasil

Por André Guerra

Protagonizada por Johnny Massaro e Alice Carvalho, a série estreia no dia 30 de outubro

Entender a rotina policial dentro e fora do ofício foi um ponto de partida que se transformou em algo bem maior. Resultado de uma longa pesquisa que se estendeu por mais de uma década, a série “Delegado”, filmada no Recife, teve os três primeiros episódios de sua primeira temporada exibidos no 28º Festival do Rio. Com direção de Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, além da produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, cada capítulo contagiou a première com seu humor afiado e promessa de uma ação incrivelmente reconhecível para o espectador pernambucano.

A sessão antecipou estreia da série, marcada para 30 de outubro, às 22h, no Canal Brasil, com novos capítulos a cada semana. No dia seguinte à estreia de cada episódio (serão sete no total da temporada), o mesmo entrará no catálogo do Globoplay.

O enredo gira em torno do jovem Felipe (Johnny Massaro), que assume o comando de uma delegacia na periferia e se depara com uma realidade de sucateamento, precariedades e corrupção bem diferente da que idealizava na academia. A rotina no ambiente de trabalho será permeada por figuras peculiares, como o agente Francisco Marmota (Rubens Santos), enquanto a situação na casa do protagonista, onde vivem sua mãe, Fátima (Virgínia Cavendish) e Letícia (Estela Leiming), também esconde alguns segredos que podem comprometer sua carreira.

“A fagulha para o início de tudo foi quando um amigo formado em Direito começou a fazer vários concursos, se tornou delegado sem contar a ninguém. De repente, ele aparece com a pistola grudada no corpo e o distintivo na mão”, relembra Leonardo Lacca, em entrevista ao Diario. “Interessou à gente entender melhor as tantas pequenas coisas que permeiam esse universo, desde como esse novo elemento profissional transforma o cotidiano familiar dessa pessoa até a vida social mesmo”.

A série começou a ser desenvolvida a partir de 2013, alimentando-se tematicamente de todos os inumeráveis acontecimentos políticos e policiais que marcaram a vida brasileira nesse período. As gravações ocorreram integralmente na capital pernambucana em 2022, e a cidade acabou se tornando invariavelmente um de seus personagens centrais.

“O Recife não está somente nas paisagens, mas nessas figuras que compõem a trama. Muitos deles a gente conhece bem no nosso dia a dia, enquanto outros a gente passou a entender melhor a partir da pesquisa”, explica Lacca. “Eu, como um homem de classe média que mora no bairro da Torre, me identifico muito com o protagonista. Fico imaginando como seria se eu acabasse assumindo uma posição como aquela”, completa.

Com a abertura embalada por “A Vida é Assim”, de Conde Só Brega, “Delegado” traz vários outros nomes fortes no elenco, como Alice Carvalho, Hermila Guedes, Rubens Santos, Igor de Araújo, Narcival Rubens, Georgette Fadel, Nataly Rocha e Tânia Maria, além de participações de Tuca Andrada e Fábio Leal. A estrutura segue vários passos de uma saga clássica em que o herói precisa se familiarizar com um mundo hostil para poder domá-lo, mas algumas subversões feitas por Leonardo Lacca e Marcelo Lordello são essenciais para a construção de uma identidade inequivocamente recifense.

“Nós crescemos com séries incríveis e bastante cinematográficas, na estética e na sofisticação da estrutura, como ‘Twin Peaks’, ‘Mad Men’, ‘Sopranos’, ‘Breaking Bad’, entre outras que gosto muito. Queríamos trazer aqui o universo do policial com autenticidade e humor, a partir dos códigos do gênero, mas era essencial para nós que ‘Delegado’ fugisse de alguns tropos que, na nossa realidade, não fazem sentido”, descreve Lacca. “O policial quer fazer o trabalho dele dentro do expediente e depois largar, como todo trabalhador. Era bem importante que a série não romantizasse esse mundo e observasse a vida real dessas pessoas”, conclui o realizador.

*O repórter viajou a convite do Festival do Rio.