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Em busca do Oscar, Tom Cruise satiriza iminência do fim do mundo na comédia redundante ‘Digger’

Filme dirigido por Alejandro González Iñárritu (de 'Birdman' e 'O Regresso') entra em cartaz nesta quinta-feira (1º) e coloca o astro de ação em papel mais excêntrico da sua carreira

Por André Guerra

Transformação física e atuação caricata de Tom Cruise miram na temporada de premiações, mas tiro pode ter saído pela culatra

Principal astro clássico de Hollywood ainda em atividade, Tom Cruise se dedicou tanto aos papéis de herói de ação, sobretudo na franquia “Missão Impossível” e no fenômeno de “Top Gun: Maverick”, que toda uma geração desconhece sua fase de ator de personagem. Agora em cartaz nos cinemas com “Digger”, de Alejandro González Iñárritu, ele se deixa conduzir pelo projeto autoral de um cineasta consagrado pela primeira vez desde “Magnólia” (1999), de Paul Thomas Anderson, pelo qual conquistou sua última indicação ao Oscar de atuação.

A trama é um campo minado de spoilers, já que a divulgação fez questão de esconder um fator-surpresa que muda toda a experiência. Tom Cruise interpreta o personagem-título, Digger Rockwell, um multibilionário que ignora os avisos dos funcionários de sua empresa petrolífera e se torna o principal responsável por um desastre de proporções globais. O presidente dos Estados Unidos (vivido por John Goodman) coloca a busca por uma solução nas suas mãos, o que desencadeia eventos ainda mais bizarros.

Concebido pelo próprio Iñárritu, em parceria com Sabina Berman e Jez Butterworth, o argumento parece mirar no tipo de humor absurdista do clássico “Doutor Fantástico”, de Stanley Kubrick, e no estilo de sátira pandêmica de “Não Olhe para Cima”, de Adam McKay. Na virada para o segundo ato, porém, “Digger” revela uma nova camada temática que o aproxima muito mais de outros filmes do próprio realizador, em especial a chave teatral de “Birdman ou (a Inesperada Virtude da Ignorância)” e as meditações sobre a criação da arte presentes em “Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades”.

Mesmo para quem já esqueceu como é ver Tom Cruise em um papel fora da ação, é fácil identificar os maneirismos que o tornaram uma persona inconfundível. Seu empenho em se transformar na caricatura de Digger Rockwell vai além do exagero da caracterização. As surpresas reservadas pelo roteiro são mais do que suficientes para escavar outras camadas do personagem — e as boas presenças de John Goodman, Riz Ahmed, Sandra Hüller, Emma D’Arcy e Jesse Plemons ajudam a dissipar aquela energia maníaca por protagonismo que contamina alguns dos seus papéis.

A grande ironia é que, com todo esse palco para Cruise deitar e rolar, o grande protagonista aqui é Alejandro González Iñárritu. Vencedor de dois Oscars de Melhor Direção consecutivos (por “Birdman”, em 2015, e por “O Regresso”, em 2016), o cineasta mexicano está entre os nomes mais poderosos da indústria e é, sem dúvidas, um dos poucos capazes de bancar uma produção original tão excêntrica estimada na faixa de US$ 125 milhões. E com esse elenco na liderança, ele tem a confiança para (quase literalmente) bater palmas para si mesmo durante a própria projeção.

As piadas de “Digger” são tão sem ritmo e os alvos são tão óbvios que quase dá um alívio quando, em certo ponto, o filme parece assumir sua inaptidão para satirizar os homens brancos e poderosos que governam o mundo. Recorrer à autoconsciência para reconhecer limitações e refletir sobre o poder da arte poderia ser uma saída para Iñárritu e Tom Cruise se o roteiro tivesse algo realmente particular a dizer sobre o assunto. O que eles fazem, na verdade, é expor as próprias espertezas verbais e visuais reiteradas vezes, como se piscassem até que a plateia entendesse.

Apesar de ideias visuais interessantes, “Digger” é um dos filmes mais amorfos da carreira do diretor. Suas imagens fixas desbotadas, sempre captadas com a mesma lente grande-angular, entram em absoluta colisão com a velocidade de que esse tipo de sátira precisava. E a câmera na mão que sublinha a mudança principal na narrativa para revelar crueza soa ainda mais banal.

Permanece uma incógnita se a grande expectativa da indústria na parceria entre ator conhecido pelo gigantismo e diretor celebrado pela ambição vai resultar no tão sonhado Oscar de Melhor Ator para Tom Cruise. Talvez o esforço para deixá-lo irreconhecível e o exagero da composição de seu protagonista soem, de partida, como uma apelação antiquada com esse fim.