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35 anos de ‘Cinderela’: Como comédia levou representatividade ao palco e revolucionou o teatro de PE

Espetáculo que surgiu em uma despretensiosa meia-noite de 1991 se tornou fenômeno e retorna ao público em edição celebrativa no Teatro do Parque, neste fim de semana

Por André Guerra

A personagem ganhou programa na TV, na rádio e aparições em filmes, tornando-se um dos maiores ícones da cultura pernambucana

O ano era 1991 e já passava da meia-noite quando um grupo de amigos reinventava despretensiosamente a história do teatro pernambucano. A ideia de levar ao Teatro Valdemar de Oliveira, então em funcionamento pleno e lotado, um espetáculo de comédia que recontava a história da Cinderela parecia — e era — um grande risco, mas se revelou a origem de um dos maiores ícones da cidade.

Toda uma geração cresceu com esse imaginário nas diferentes mídias, enquanto outra guarda as memórias de ver e ouvir o célebre bordão “Oxe, Mainha” nos palcos. Todas terão a oportunidade de, juntas, conferir “Cinderela: A História que Sua Mãe Não Contou” em edição celebrativa de 35 anos do projeto com sessões no Teatro do Parque, neste sábado (19), às 16h e às 19h, e no domingo, às 16h, todas esgotadas.

O ator Jeison Wallace, quase indissociável da Cinderela, tinha em mãos um manuscrito do saudoso Henrique Celibi, no qual a história do conto de fadas era totalmente recontada por uma perspectiva suburbana e com um concurso de transformistas no lugar do baile original.

“Não tínhamos nenhum recurso na época, só queríamos um horário para nos apresentar. Eu chamei a Trupe (do Barulho) e propomos ao também saudoso Rinaldo Oliveira, diretor do teatro, uma apresentação de meia-noite, única hora disponível”, relembra o ator em entrevista ao Diario. “As pessoas ficaram com tanta curiosidade, achando que seria uma peça com sexo explícito ou algo parecido, e aí, quando chegaram lá, foram surpreendidas pela leveza e pelas gargalhadas”.

A primeira formação da tão famosa Trupe do Barulho era composta ainda por Roberto Costa, Inaldo Oliveira, Aurino Xavier, Flávio Luiz, Jô Ribeiro, Luciano Rodrigues e Edilson Rygaard, os últimos três já falecidos. O sucesso da primeira apresentação não significa que o grupo não enfrentou dificuldades logo no começo. Panfletagens, divulgação em murais e diferentes estratégias de campanha para manter a peça em alta foram apenas parte do processo que renderia frutos até hoje.

“A personagem ganhou vida própria. Transmissões de carnaval, programas de TV, sitcom, rádio, cinema. Várias gerações foram conhecer a Cinderela nessas mídias e até hoje relatam com muito carinho que fiz parte da infância e adolescência delas”, conta Jeison, acrescentando a importância que a personagem teve na formação de público no Recife. “A plateia de teatro era mais seleta e de uma classe mais privilegiada, principalmente na época em que os atores globais e famosos viajavam o Brasil todo com espetáculos caros e com autores internacionais. Nosso espetáculo era muito sobre a gente, rindo de nós mesmos”.

De acordo com a Trupe, poucas alterações e atualizações foram feitas no texto original e a estrutura da peça segue a mesma. Na formação atual, Roberto Costa reprisa o papel da Bicha Madrinha, enquanto Paulo de Pontes substitui Luciano Rodrigues como a Madrasta, e Inaldo Oliveira volta como a Piniqueira do Reino. Convidados desta edição, estão presentes André Lins (Príncipe), Petreson Elói (Irmã Ruth), Rick Tompson (Irmã Rachel) e Luan Alves (a segunda Piniqueira do Reino).

“Essa identificação que o público pernambucano tem com a Cinderela vem muito desse bairrismo, dos trejeitos e do vocabulário que Jeison construiu para o espetáculo. As pessoas estavam carentes de algo que fosse tão próximo delas. E todo mundo conhece uma pessoa que fala e brinca como a nossa Cinderela, seja na família, nas amizades ou na vizinhança”, reforça Roberto Costa. “Cheguei a ouvir que esse espetáculo é para o teatro o que o Manguebeat foi para a música também nos anos 1990 e acho uma boa definição, porque realmente existiu um teatro pernambucano antes e outro depois”.

A iconografia de “Cinderela: A História que Sua Mãe Não Contou” impulsionou diversos outros projetos da Trupe do Barulho, que se transformou em uma das maiores referências das artes da cena no estado. O pioneirismo da representação LGBTQIAPN+ e sua presença nos horários nobres da televisão são outros créditos que marcaram a história da personagem. “Muito antes dessa representatividade virar uma pauta tão importante, as emissoras tiveram confiança e coragem de ir adiante com a Cinderela porque viam a popularidade que ela estava conquistando. E não apenas deu certo como é motivo de orgulho hoje, para mim, perceber que inspiramos tantas travestis que nos assistiam lá atrás”, destaca ainda Jeison Wallace.

Do bordão “Oxe, Mainha”, um dos mais difundidos do palavreado pernambucano, até a consagração como Boneco de Olinda, Cinderela é mais do que um fenômeno cultural e popular do estado. Ela é, 35 anos depois, um de seus mais simbólicos rostos e vozes.