Ridley Scott volta ao piloto automático na monótona distopia 'Ponto sem Retorno', com Jacob Elordi
Filme é o 30º longa do diretor de 'Alien: O 8º Passageiro' e 'Gladiador'; prestes a completar 90 anos, Scott faz um de seus filmes mais indiferentes
Após um vírus destruir boa parte da humanidade, o piloto viúvo Hig (Jacob Elordi) vive isolado em um hangar com seu cachorro Jasper e na companhia do ex-fuzileiro naval Bangley (Josh Brolin). A possibilidade de encontrar vida além daquele perímetro o leva a correr o risco de deixar aquele espaço, mesmo que isso possa custar sua vida. Na viagem, ele conhece Cima (Margaret Qualley) e seu pai Pops (Guy Pearce), fazendeiros que também tentam sobreviver à nova realidade, e seus planos começam a mudar.
Já em cartaz nos cinemas, o enredo é de "Ponto Sem Retorno", 30º longa-metragem de Ridley Scott, provavelmente o mais irregular de todos os nomes poderosos da sua geração. Prestes a completar 90 anos, o cineasta britânico lançou as ficções científicas "Alien: O 8º Passageiro" e "Blade Runner" no começo da carreira e se voltou aos épicos na maturidade, com "Gladiador" e "Cruzada". Sua obra é marcada menos por uma assinatura consistente e mais pela quantidade, pompa de produção e versatilidade de gêneros.
Mesmo nos seus piores filmes ("Êxodo: Deuses e Reis", "Casa Gucci"), a base do projeto tinha potencial. Era possível enxergar neles e em tantos outros um propósito real por parte dele em levar adiante a ideia. Aqui, no entanto, inexiste um propósito plausível para esse esforço de talentos conjuntos. Não fosse a cinematografia refinada de Erik Messerschmidt (vencedor do Oscar por "Mank") e a presença fotogênica do elenco, nada chamaria atenção em "Ponto Sem Retorno".
O roteirista Mark L. Smith está adaptando o livro "Na Companhia das Estrelas", de 2012, escrito por Peter Heller, e, apesar dos paralelos óbvios com a pandemia da Covid-19, toda a caracterização do universo parece mesmo datada de pelo menos 15 anos atrás. A construção de mundo é genérica, idêntica a dezenas, talvez centenas, de produções do gênero, com ares de "The Walking Dead" ou "The Last of Us".
Jacob Elordi não está sequer sujo o suficiente para convencer como alguém que vive nesse cenário pós-apocalíptico. Seu andar sorumbático de ensaio rústico da Chanel, acompanhado pelo cachorro, só não é mais previsível do que a figura alfa protetora de Josh Brolin, reprisando seu Gurney Halleck de "Duna". Margaret Qualley e Guy Pearce completam o time com atuações corretas em personagens tão unidimensionais que o espectador mal tem tempo de decorar seus nomes.
É admirável a energia de trabalho de Ridley Scott, como produtor e diretor. Desde 2021, ele tem lançado praticamente um filme por ano — e todos produções de grande porte. Impressiona, porém, que o cineasta consiga, a essa altura, entrar em um piloto automático tão perceptível e que, no processo, leve todo mundo junto com ele.