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Isolamento e violência contra a mulher são foco de 'Antártida', que abriu o 54º Festival de Gramado

Dirigido por Bruno Safadi e escrito por Cláudia Jouvin, o suspense é estrelado por Andréa Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Lázaro Ramos e grande elenco

Por André Guerra

Elenco é o ponto alto de superprodução, que estreia nos cinemas no dia 17 de setembro

O frio da Serra Gaúcha não foi quase nada comparado ao clima inóspito de cerca de -25 °C que os protagonistas do thriller “Antártida”, que abriu o 54º Festival de Cinema de Gramado, precisam enfrentar. Na trama, porém, a temperatura é menos um conflito e mais um ponto de partida, já que a história vai acompanhar os desdobramentos de uma violência brutal sofrida por uma novata, Inês (Marina Ruy Barbosa), que chega a uma base militar brasileira no continente congelado.

Funcionando tanto como eixo emocional quanto como um pino que segura todas as engrenagens, a presença da subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão), que logo assume a liderança da investigação, transforma o que poderia ser um drama de isolamento em um mistério com suspeitos bem definidos. Um problema no gerador só torna tudo ainda mais complicado, forçando aqueles personagens a se confrontarem em um espaço cada vez mais claustrofóbico.

Dirigido por Bruno Safadi a partir de um roteiro original de Cláudia Jouvin, “Antártida” foi inicialmente concebido como uma série. A consolidação do texto e as novas possibilidades de produção, que levaram o projeto à rodagem nos Estúdios Globo, foram levando a ideia para a tela grande. A estreia está marcada para 17 de setembro, quando o público poderá conferir a resolução do suspense.

Essa costura da semente seriada para uma duração de pouco mais de 1h30, infelizmente, é bem perceptível. Ao tentar abarcar todas as camadas da masculinidade tóxica e fugir de possíveis estereótipos didáticos, o que “Antártida” faz é justamente o contrário. A violência está distribuída em tantas camadas — o estupro, o controle, a agressão disfarçada de cuidado, o olhar objetificante, o desprezo intelectual — que os personagens masculinos parecem menos pessoas e mais conceitos.

É perceptível o empenho do elenco para dar humanidade e personalidade a esses homens. Destacam-se Lázaro Ramos e Antônio Calloni pela forma como escapam das obviedades do texto e imprimem o mínimo de ambiguidade e tensão aos seus respectivos papéis. Adélio Lima e João Vitor Silva, apesar do pouco espaço para desenvolver seus personagens, também driblam algumas armadilhas da história.

Quem realmente mantém a neve no ar mesmo quando tudo parece perdido, no entanto, é Andréa Beltrão. É tamanha a autenticidade que ela confere à sua busca pelo culpado que o espectador corre o risco de nem notar esquematismo grosseiro que o roteiro encontra para justificar esse empenho (graças à atriz que a conexão entre ela e o crime não soa tão pueril e artificial quanto poderia).

O cenário recriado com tanta competência pela produção é duramente prejudicado pela falta de inspiração na encenação. Diretor de longa carreira no cinema autoral independente, Bruno Safadi vem dirigindo grandes projetos para a Globo, como a série de sucesso “Jogada de Risco”, e trabalha bem com elementos básicos da encenação e da interação do elenco, mas, por outro lado, não demonstra qualquer interesse em explorar a relação entre o exterior e o interior para potencializar o mistério.

A ambição de produção e as intenções de pauta de "Antártida" são altamente válidas para a produção nacional e, quando estrear no circuito, é possível que consiga envolver uma plateia grande com seu jogo de suspeitos. Mas na busca de englobar as complexidades espinhosas de um assunto, seu conjunto ficou mais cambaleante do que eficaz.

ENTREVISTAS 

Em Gramado, o Diario conversou com a equipe do longa após a exibição do filme no Palácio dos Festivais. Entusiasmada com seu papel, Marina Ruy Barbosa reforçou a importância temática do filme e o seu potencial de comunicação com o grande público.

“Acho extremamente importante que a gente discuta a violência, enquanto artistas, embalando a informação também como forma de entretenimento. A gente acaba atingindo bem mais pessoas dessa forma”, destaca a atriz.

“Desde o começo, o roteiro me chamou a atenção, as pausas e a força dos silêncios, principalmente depois de ela sofrer algo tão indizível. É uma personagem incrível, cheia de liberdade, de vontade de viver aquele sonho épico de ir até a Antártida, e que vê tudo aquilo virar um pesadelo”, acrescenta Marina.

Já Lázaro Ramos pontua que sua maior preocupação com o seu personagem era torná-lo reconhecível. “É muito fácil cair nesse lugar de um agressor simplista. Frequentemente, quando vamos fazer filmes com temas tão urgentes, caímos no explícito e no pedagógico. Acho que esse filme usa mais a didática do sentir e do observar. O não dito é muito importante na direção de Bruno e no roteiro de Cláudia”, afirma o ator.

“Sempre quis mostrar desde as macroviolências até as microviolências. Para mim, é essencial, inclusive, demonstrar como esse machismo estrutural é brutal e prejudicial inclusive para os homens. Falo isso para meu filho pequeno, inclusive. Precisamos desconstruir ideias arraigadas desde muito cedo porque é nesse tipo de violência que alguns comportamentos podem resultar”, reforça a roteirista.

Bruno Safadi defende que, apesar de a história ser ambientada em outro continente, a ficção está bem mais próxima do que parece. “O Brasil inteiro está ali. Mais do que traços da nossa sociedade, há um reflexo direto da nossa cultura. E, nesse sentido, a Antártida vira uma extensão do nosso país em suas formas de se relacionar”, explica.

O cineasta salienta ainda a sua satisfação em trabalhar em uma produção de gênero. "Fazer filmes menores autorais e produzir cinema de suspense com esse suporte todo de tecnologia e de cenário de estúdio só tem a agregar. Espero poder continuar fazendo as duas coisas sempre", projeta.