Aos 88 anos, Martinho da Vila faz última grande turnê com Mart’nália para celebrar o laço entre pai e filha
Aos 88 anos, Martinho da Vila faz sua última grande turnê com a filha, Mart’nália, com passagem em Pernambuco programada para 17 de outubro, no Classic Hall
Antes de se tornar um dos maiores expoentes do samba, Martinho da Vila foi sargento do Exército. No fim dos anos 1960, dividia a rotina entre o quartel e os festivais de música na televisão. Em casa, porém, a farda quase não aparecia. Para a pequena Mart’nália, que via o pai toda semana cantando na TV, era difícil entender como aquelas duas figuras podiam ser a mesma pessoa.
Hoje, aquela dúvida deu lugar a uma cena que talvez aquela menina não imaginasse: Mart’nália e Martinho dividem o palco e percorrem juntos o país com a turnê “Pai e Filha”, a primeira realizada pelos dois juntos. Uma parceria que, de tão óbvia, parecia estar apenas esperando o momento certo para acontecer, justamente na última grande excursão de Martinho.
Quando fala do pai fora dos palcos, Mart’nália troca o ídolo do samba pelo “paizão” que conhece desde a infância. “Ele é muito bobão, brincalhão, adora piada e gosta de rir da própria piada. Às vezes, conta a mesma coisa de novo. Não fica dando exemplo ou querendo ensinar nada. Ele vai mostrando com a própria vida e levando todo mundo junto. É uma relação de muito carinho, respeito e admiração”, diz a artista em entrevista ao Diario.
Em razão do cansaço das longas horas de voo, Martinho da Vila, aos 88 anos, decidiu desacelerar o ritmo de suas viagens. Até pouco tempo, no entanto, as parcerias com Mart’nália se limitavam a participações breves nos shows e festivais.
“Pai e Filha” apareceu, então, como a ocasião ideal para concretizar uma experiência compartilhada do início ao fim e, mais do que isso, recuperar uma convivência que a carreira dos dois acabou tornando menos frequente. “A ideia também era aproveitar para ficar mais perto. Foi uma forma de resgatar esse tempo que a gente tinha perdido e poder estar junto de novo”, celebra a cantora.
A retomada dessa convivência tem, para Mart’nália, um sabor de reencontro com o início da própria trajetória. Antes de consolidar o próprio nome na MPB, ela trabalhava na banda de Martinho da Vila como backing vocal e percussionista.
“Estou matando saudade de tudo isso”, ressalta. Aos poucos, a carreira solo, que começou nos anos 1990, a permitiu que encontrasse sua maneira particular de dialogar com a tradição familiar. Os discos “Pé do Meu Samba” (2002) e “Menino do Rio” (2006) ajudaram a ampliar sua projeção nacional e a consolidar sua assinatura dentro do samba.
Embora as comparações com o pai fossem inevitáveis, Mart’nália diz que nunca se sentiu pressionada pela semelhança entre os dois. “Quando um filho decide seguir a mesma profissão de alguém já reconhecido, é natural que as comparações apareçam. Mas eu nunca tive problema em lidar com isso.” conta.
Para ela, tampouco existe uma sucessão a ser cumprida. “Não tem bastão passando, não. Acho que ele passou isso para o Brasil, não exatamente só para mim”, comenta. No show, as vozes se unem para saudar clássicos como “Quem é do Mar não Enjoa”, “O Sino da Igrejinha” e “O Teu Chamego”, mas também se espalham em blocos solos, nos quais cada um desfila o próprio repertório.
“Pai e Filha” chega ao Classic Hall, em Olinda, no dia 17 de outubro. Para Mart’nália, a passagem por aqui tem um significado especial, já que Pernambuco remete às viagens que fazia com o pai durante a infância. “É um lugar que ele me ensinou a gostar muito desde pequena”, conta.
Martinho também faz questão de levar referências nordestinas para o setlist, com homenagens a Dominguinhos e Luiz Gonzaga. “É muito bacana poder misturar tudo isso, porque é o Brasil. Meu pai é o Brasil”, diz a cantora. Os ingressos estão à venda na bilheteria da casa e pela plataforma Ingresse a partir de R$ 350.
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