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‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ volta ao básico na forma e no conteúdo, mas surpreende pela sobriedade emocional

Em cartaz nos cinemas, nova aventura com Tom Holland como amigo da vizinhança tem o tom mais coeso de todos os quatro filmes com o ator, mas ainda falta personalidade

Por André Guerra

Destin Daniel Cretton assume a direção e confere mais claridade e leveza ao filme

No universo das HQs adaptadas para o cinema, não há personagem com uma relação mais constante com o público do que o Homem-Aranha. Todas as encarnações do amigo da vizinhança, das mais bem recebidas às mais divisivas, obtiveram números extraordinários nas bilheteria e, em geral, conquistaram a crítica também. Desde que assumiu o papel em 2017, com “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, Tom Holland se revelou, por larga vantagem, a versão mais lucrativa do herói até hoje — algo que deve se acentuar agora com “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, que acaba de entrar em cartaz e talvez seja o mais consistente dos quatro filmes-solo do ator.

Na nova aventura, Peter Parker está vivendo apenas em função do uniforme desde os acontecimentos do longa anterior, “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”, em que a memória de MJ (Zendaya) e de seu melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), sobre sua identidade foi apagada. Ao mesmo tempo em que seus poderes parecem sofrer uma perigosa mutação, uma ameaça misteriosa começa a possuir o corpo das pessoas.

A atmosfera de esquecimento e anonimato poderia render um clima ostensivamente melancólico, mas “Homem-Aranha: Um Novo Dia” aproveita o reset da saga para trazer de volta elementos básicos da mitologia do herói, que pareciam perdidos desde os capítulos recentes do Universo Marvel. A ligeireza de toda a sequência de abertura, com a primeira grande perseguição pelas ruas de Manhattan, resgata um espírito essencial do personagem, que fazia falta em meio a tantas conexões entre filmes.

Enquanto os três longas anteriores estrelados por Tom Holland foram comandados por Jon Watts, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” tem Destin Daniel Cretton (de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”) na direção — e a diferença se faz sentir sobretudo no trato da imagem. Do melhor uso da luz e dos contrastes às opções de cor e direção de arte, o filme não só é mais aprazível do que o antecessor como também encontra soluções muito mais vibrantes para orquestrar as sequências climáticas de ação (quase todas às claras, com destaque para a que ocorre em uma prisão cercada de teias).

Destin Daniel Cretton se sai ainda melhor no peso das cenas intimistas envolvendo Peter Parker e MJ, principalmente por impedir que o humor que permeia a narrativa distraia o espectador das emoções genuínas que envolvem as escolhas do protagonista. É, nesse sentido, uma das incursões mais sóbrias em termos de tom de toda a fase atual do MCU. E Tom Holland, Zendaya, Jacob Batalon e Sadie Sink (em uma participação definidora como Jean Grey) respondem por grande parte dessa solidez.

O que não há em “Um Novo Dia” é aquela expansividade plástica que Sam Raimi imprimia à trilogia estrelada por Tobey Maguire, por exemplo. Tal qual 90% dos realizadores que entram para a engrenagem da Marvel, Cretton se vê preso a uma linguagem visualmente básica e sem tanta personalidade. Sempre que algo estilisticamente diferente é sugerido, como o plano detalhe do olho por dentro do uniforme, é esquecido ao longo da projeção.

E, embora as conexões com produções futuras não sejam dominantes, a cada vez que personagens célebres ganham tempo de tela, a obra perde em autonomia e ganha em previsibilidade. A adição mais interessante é a do justiceiro vivido por Jon Bernthal, que tem mais a adicionar ao longa do que a chamar atenção para sua aparição.

Mas é a honestidade e a química das atuações, aliadas à tentativa de retomar o elemento humano, que devem fazer de “Homem-Aranha: Um Novo Dia” um novo fôlego para uma marca que, desde o ápice de repercussão com "Vingadores: Ultimato", precisa recorrer aos seus ícones consolidados para se manter relevante.