Destaque no terror, Gabriela Amaral fará um thriller de ação e outro sobre mulher que vira crocodilo
Diretora de 'O Animal Cordial' retomará parceria com Murilo Benício no road-movie 'Cão de Guarda' e prepara ainda 'Crocodila', longa de horror corporal com Bianca Comparato
O cinema brasileiro de gênero, sobretudo de horror, passou por uma grande renovação durante a década de 2010. Talvez o mais instigante de todos os nomes que surgiram nesse cenário foi o de Gabriela Amaral Almeida, que chamou a atenção dos festivais já nos seus curtas, como “A Mão que Afaga” e “Estátua”, mas expandiu em repercussão com “O Animal Cordial” e “A Sombra do Pai”, lançados respectivamente em 2018 e 2019.
Em preparação para comandar em sequência dois trabalhos ambiciosos, “Cão de Guarda” e “Crocodila” (com as filmagens previstas para 2027), ela conversa com o Diario com exclusividade sobre os próximos passos da carreira.
Por mais diferentes que sejam os pontos de partida das suas histórias — uma reação a um assalto que vira carnificina, em “O Animal Cordial”, ou uma menina tentando ressuscitar a mãe, em “A Sombra do Pai” — Gabriela é uma regente do medo e da solidão. Seus filmes instrumentalizam elementos célebres do terror, do suspense e da fábula para provocar debates e instigar tensões que movem o dia a dia no país, manipulando as sensações da plateia com um estilo simultaneamente acessível e rico em referências.
A cineasta esclarece que, para ela, render-se às necessidades de cada personagem é mais importante do que expor uma tese social. “Meus personagens estão sempre em processo agônico e precisam da jornada para entender quem são, para onde vão. O diretor precisa saber se curvar ao personagem. Não me interessam figuras que já têm todas as respostas, porque aí você não tem drama e, sim, uma grande ilustração”, reforça.
Os desafios de ser como diretora mulher no campo do cinema de gênero motivam criativamente Gabriela, o que é notável pelas escolhas de seus próximos projetos. Descrito por ela como um road-movie de ação, “Cão de Guarda” vai trazer de novo Murilo Benício, com quem trabalhou em “O Animal Cordial”, para contar a história original de um pai que pega a estrada para levar a filha até a sua ex-esposa.
“É uma jornada de amadurecimento dessa filha ao lado do pai, com situações intensas, explosões, queda de moto, violência. Ou seja, coisas que não costumam ser creditadas ao feminino. Qualquer área do conhecimento que exija domínio técnico é considerada fora dos domínios das mulheres, em princípio”, observa a realizadora, acrescentando: “Além dos temas que me mobilizam, existe uma vontade grande de provar o contrário para quem pensa assim”.
Um combo ainda mais complexo, por outro lado, é “Crocodila”. Também fruto de um roteiro autoral de Gabriela Amaral, o longa de horror terá Bianca Comparato no papel principal de uma herdeira carioca que começa a se transformar no réptil do título. Na entrevista, a diretora revela que o longa é essencialmente alegórico, mas afirmou que a concepção da monstruosidade será tão importante quanto a construção psicológica.
“Aqui toda essa mudança é também simbólica e diz muito sobre todo o tumulto interno pelo qual a protagonista está passando. Eu adoro filme de monstro e o processo artesanal da criação de uma mutação física é, em si, fascinante”, explica. Retomando a sua diretriz, ela enfatiza que premissas pensadas agora poderão cair ao longo do processo. “Há coisas que queremos dizer e que não cabem para aquela obra. Novamente, a personagem precisa ser soberana. Não existe nada mais glorioso no cinema narrativo do que ela”.
Ela destaca ainda como trabalhar com atores é significativo para instigar sua criatividade. "Levar a cena do papel à arena cênica é um negócio que não tem teoria que te ensine. É uma prática que me alimenta muito, que me dá ideias, que me renova e que me faz olhar meus trabalhos mais autorais de forma fresca", salienta. "Eu acho bastante positivo e expansivo como diretora passar por experiências mais comerciais ou mais voltadas para a televisão”.
A experiência recente dirigindo produções como o remake de “Quarto do Pânico”, lançado este ano direto no Telecine e baseado no sucesso do suspense homônimo 2002 comandado por David Fincher, pode ter proporcionado à cineasta um rito de passagem para uma nova fase de sua filmografia.
Com um arsenal de produção maior, tendo experimentado com a linguagem e aprendido a se comunicar com o público, espera-se que Gabriela Amaral Almeida se consolide ainda mais nos próximos anos não só como uma voz a se observar, mas como, ela mesma, uma soberana do terror e de suas tão possibilitadoras tecnologias.