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"Há uma Zezé Motta antes e outra depois", diz atriz de ‘Xica da Silva’, de volta em cartaz após 50 anos

Zezé Motta fala ao Diario sobre o legado do clássico do cinema brasileiro, dirigido por Cacá Diegues, que retorna aos cinemas nesta quinta (16) com versão restaurada em 4K

Por André Guerra

Lançado em 1976, 'Xica da Silva' retorna através da Sessão Vitrine Petrobras

Nem todo artista tem o privilégio de testemunhar um trabalho divisor de águas em sua carreira completar 50 anos tão vivo no imaginário cultural. Esse é o caso de Zezé Motta com o clássico "Xica da Silva", que está completando 50 anos desde o seu lançamento e retorna às salas — como a do Cinema da Fundação, no Recife — em versão restaurada em 4K, através da Sessão Vitrine Petrobras.

Dirigido pelo saudoso Cacá Diegues, que faria outros trabalhos canônicos, como "Bye Bye Brasil" e "Tieta do Agreste", o filme foi adaptado do livro homônimo de João Felício dos Santos e até hoje é um marco do cinema brasileiro — influente, questionado e referendado por diversas razões.

A história verídica de "Xica da Silva" permanece fascinante: a personagem-título, vivida por Zezé Motta, é uma mulher negra escravizada que, através de seu poder de sedução irrefreável, consegue sua alforria e ascende à alta sociedade no Distrito Diamantino (hoje a cidade de Diamantina, em Minas Gerais), casando-se com o contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas).

Transformador da representação racial no cinema nacional, "Xica da Silva" apresentou Zezé Motta para o país inteiro. O longa de Cacá Diegues foi visto por mais de 3 milhões de espectadores à época e, nas últimas cinco décadas, atravessou diferentes gerações.

Em entrevista ao Diario, a atriz afirma que o filme nunca a abandonou. "Cada homenagem que recebo nos diversos eventos e festivais de cinema sempre passa por 'Xica da Silva'. Já perdi as contas de quantas vezes eu o assisti, e toda vez encontro um filme diferente", destaca, enaltecendo: "Há uma Zezé antes e outra depois dele".

Apesar dos elogios da crítica, a forma burlesca como a obra trata da objetificação do corpo feminino provocou diversas leituras ao longo do tempo. Ciente dos vários apontamentos feitos desde o lançamento, Zezé conta que passou a compreender ainda mais a relevância do filme para a identidade cinematográfica do país.

"Com o passar dos anos, fui assistindo com outros olhos. Passei a perceber detalhes que antes me escapavam, as camadas da personagem, as contradições da história e também a importância que o filme teve para tantas pessoas. Hoje, vejo 'Xica' não apenas como um marco da minha carreira, mas como uma obra que faz parte da história do cinema brasileiro e que continua despertando debates muito atuais", explica. "Revê-lo completamente restaurado é como reencontrar uma parte cristalizada da minha juventude, então é particularmente especial", observa Zezé.

A história também virou assunto na TV, com a novela "Xica da Silva", exibida pela Rede Manchete entre setembro de 1996 e agosto de 1997. A produção, que também contava com Zezé Motta no elenco, tinha Taís Araújo no papel principal e foi o trabalho que lhe deu projeção nacional.

A produtora de cinema Renata Magalhães, viúva de Cacá Diegues, relembra que o cineasta alagoano teve a ideia de fazer "Xica da Silva" ao assistir ao desfile do Salgueiro de 1963. "Ele ficou deslumbrado com tudo aquilo e com aquela personagem e, anos depois, isso deu origem ao filme. Ele trouxe esse carnaval para dentro do longa, que se tornou o seu maior sucesso comercial", ressalta. "É genial a forma como ele pega uma personagem histórica e a trata de um modo absolutamente irreverente e inesperado, principalmente para aqueles tempos", revela Renata.

Com um elenco estrelado ainda por José Wilker, Altair Lima e Elke Maravilha, além da música icônica de Jorge Ben, "Xica da Silva" é um projeto simbólico de uma época peculiar na carreira de um cineasta que sempre buscou compreender as diferentes dimensões históricas do Brasil e que, em cada uma de suas controvérsias, nunca se esquivou de sua autenticidade.