Após 50 anos, Recife recebe nova exposição do cearense Sérvulo Esmeraldo: "Desejo dele", diz viúva
Exposição "Esse é Sérvulo Esmeraldo" resgata a trajetória do artista cearense e destaca sua relação com Pernambuco em mostra gratuita na Caixa Cultural Recife
O universo criativo do saudoso Sérvulo Esmeraldo — feito de aço, tinta, papel e efeitos visuais — volta a surpreender o público recifense, que não testemunhava uma mostra do artista cearense desde 1977.
Quebrando esse jejum de quase 50 anos, a exposição “Esse é Sérvulo Esmeraldo" estreia nesta quinta-feira (2), às 19h, na Caixa Cultural Recife, contando com visita guiada, interpretação em Libras e a presença dos escritores Ronaldo Correia de Brito e José Flávio Vieira. Em cartaz até 25 de outubro, a entrada é gratuita.
A mostra reconecta o Recife ao legado de quase 70 anos de carreira do artista cearense. “Para mim, representa o cumprimento de um desejo dele”, revela a curadora Dodora Guimarães Esmeraldo, que é a viúva de Sérvulo. Nascido no Crato, interior do Ceará, ele expôs na capital pernambucana em apenas duas ocasiões: a primeira em 1962, na Galeria de Arte do Recife, e a segunda em 1977, na Gatsby Arte.
Nesta última, o escultor morava em Paris. Após retornar ao Brasil e fixar residência em Fortaleza, Sérvulo não teve mais a chance de expor em solo recifense, apesar de ter tentado algumas vezes com a ajuda de amigos próximos e grandes artistas locais, como José Cláudio e Paulo Bruscky.
Ainda assim, o cenário artístico de Pernambuco acabou moldando profundamente sua visão de mundo. Depois que absorveu a efervescência cultural daqui e trocou experiências com nomes do calibre de Vicente do Rego Monteiro, o cearense lapidou um olhar sofisticado sobre o Nordeste.
“Não que a arte pernambucana tenha influenciado diretamente a obra dele, mas despertou nele um pensamento voltado para um Nordeste universal”, conta Dodora. “Mostrou que não é uma região caricatural, mas um território de grandes possibilidades e invenções”, acrescenta.
As 50 peças emprestadas pelo Instituto Sérvulo Esmeraldo mostram como o artista dominava diferentes materiais ao longo de sua trajetória.
O percurso expositivo reúne pinturas em guache, desenhos em nanquim e técnicas variadas de gravura com criações em relevo e esculturas feitas de aço pintado e inox polido, além de objetos intrigantes que combinam madeira, grafite e espelhos. “Ele desenvolveu uma obra que parte da tradição, mas se constrói sobre um arcabouço que a torna contemporânea, instigante e de caráter universal", explica a curadora.
Diante disso, Dodora se apaixonou primeiro pela genialidade do trabalho e, logo em seguida, pelo homem que lhe dava vida. “Foi o meu interesse pela obra dele que me levou a procurá-lo e, depois, a construir uma relação de amor”, relembra.
À frente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, ela dedica-se a preservar e difundir o legado do artista, falecido em 2017, o apresentando às novas gerações. Não por acaso, o nome escolhido para a exposição soa como uma introdução direta, que remete a um monograma desenhado pelo próprio Sérvulo, ainda na infância, com a sigla “ES”, que significa exatamente: “Este é o Sérvulo”.
Quem visitar a exposição logo vai perceber que o rigor geométrico se tornou a marca registrada de Sérvulo Esmeraldo, fruto de sua habilidade em criar obras pautadas no cálculo e na precisão matemática, mas que também brinca com a percepção do espectador. “Ao mesmo tempo em que demonstra um domínio absoluto da geometria, também surpreende pelo seu lado lúdico”, diz Dodora.
A produção tridimensional estará representada em três séries que guiam o espectador por essa evolução: “Planos e Volumes Virtuais ” (1980-1981), “Sólidos Geométricos” (1982-1990) e “Teoremas” (2001-2015).
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