Filme de Lírio Ferreira explora turbilhão criativo por trás da fase psicodélica de Alceu Valença
Documentário ‘Vivo 76’, do diretor pernambucano Lírio Ferreira, foi destaque na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto e no Festival In-Edit Brasil
Uma das fases mais importantes da carreira de Alceu Valença, que completa 80 anos nesta terça (1º), é resgatada pelas lentes do documentário “Vivo 76”, que já está dando o que falar no circuito de festivais e tem previsão de chegar ainda este ano às salas de cinema de todo o país. Dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira (de “Baile Perfumado”), o filme passou por vitrines como o festival In-Edit Brasil, maior evento dedicado a documentários musicais do país, e a 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, que aconteceu na última semana. Em 2026, além das celebrações dos 80 anos do artista, o disco que dá título à produção completa 50 anos — e segue sendo um dos mais inspiradores de toda a sua trajetória.
“Vivo 76” relembra como a psicodelia pernambucana da década de 1970, período crítico da Ditadura Militar no Brasil, representou um dos maiores espaços de criação cultural do Brasil naquele momento. Em meio a grandes nomes da música que se destacaram no estado, como Lula Côrtes, Flaviola e Zé da Flauta, entre tantos outros, Alceu se tornou uma das maiores referências da MPB até hoje. O impacto de seu surgimento na cena nacional é justamente o gancho do filme de Lírio Ferreira, que, entre as dezenas de discos lançados pelo músico, escolhe um recorte que sintetiza sua fagulha criativa.
Em entrevista ao Diario, o diretor salienta como esse período também foi transformador em sua própria vida e como isso se relaciona com seu processo criativo. “Foi um período de muitas descobertas para mim, inclusive por perceber a violência da ditadura, vendo estudantes sendo presos. Eu morava em Olinda e passei a notar que as coisas não eram tão normais quanto pareciam”, explica Lírio.
“Lembro bem de ter descoberto o disco ‘Vivo!’ no auge de toda essa turbulência e nunca imaginei que um dia iria transportá-lo para o cinema. Via Alceu andando pela Praia de Boa Viagem e, na época, tinha apenas uma relação de fã. Ao longo dos anos 1980, fomos apresentados e viramos amigos. De perto, então, pude ter a dimensão da genialidade dele e de sua influência”, acrescenta o cineasta.
A carreira multifacetada de Alceu é explorada em “Vivo 76” por meio de um olhar cinematográfico que tenta decifrar o enigma de sua persona. A música “Vou Danado pra Catende”, de 1975, que resultaria no disco celebrado, é o grande elemento catalisador que o filme abraça. Sua rebeldia e inventividade também são temas do documentário, considerado pelo próprio realizador um trabalho sobre a construção dessa figura que hoje se conhece tão bem.
“Esse álbum que usamos como recorte consegue amalgamar o amor do Alceu menino, que acompanhava os circos mambembes do interior, os cegos e repentistas das feiras, sua vinda para o Recife, sua formação em Direito, o tempo em que jogou basquete pelo Clube Náutico Capibaribe, sua ida ao Rio de Janeiro”, relembra Lírio. “Essa alquimia elétrica, que culmina inclusive em sua relação com o cinema, também é muito importante para tentarmos fazer justiça a quem é, de fato, esse artista brasileiro completo”, exalta o diretor.