° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Filha caçula de João Gilberto transforma luto e ensinamentos do pai em disco de estreia

Loulu Gilberto, filha caçula de João Gilberto, estreia com álbum que resgata memória afetiva do pai através de canções aprendidas com ele na infância

Por André Guerra

"Meu trabalho vai seguir sendo uma síntese entre passado e futuro", afirma Loulu Gilberto, que completou 22 anos no último dia 23

Memórias físicas e sonoras são embaladas pelo tempo e servidas em diferentes formas de bossa nova. Nasce, assim, o disco de estreia de Loulu Gilberto, filha mais nova de João Gilberto, intitulado com o próprio nome da artista. Já disponível nas plataformas digitais, o álbum traz 13 faixas que mapeiam a história que compõe a base da formação musical da cantora, ao mesmo tempo em que apontam para direções imprevisíveis.

A canção de abertura do projeto, “João”, cumpre uma função muito clara de reforçar esse resgate, permitindo que a suavidade melódica da letra apresente sua voz da forma mais limpa possível. A composição, escrita por Arnaldo Antunes e musicada por Cézar Mendes, soa como a abertura de um portal, um convite para uma viagem no tempo. As faixas que se seguem, incluindo clássicos como “Manias”, “O Amor nos Encontrou”, “Qui Nem Jiló” e “Beija-me”, aprofundam gradualmente a relação de Loulu com as músicas que aprendeu com seu maior mestre.

Em entrevista ao Diario, ela explica que o processo de produção do disco foi atravessado por lembranças e afetos. “Foi como se, depois de muitos anos, eu tivesse voltado à casa onde cresci, só que agora com olhos de adulta. A criança vê tudo com aquele olhar puro, de baixo; tudo é sempre muito grande”, conta. “Acabei tendo uma grande surpresa com os quadros na parede, os móveis e a grandeza real das coisas. E poder ver a dimensão real delas foi um dos motores principais da feitura do álbum”.

Filha de João Gilberto com a jornalista Cláudia Faissol, Loulu foi registrada como Luísa Carolina Gilberto há 22 anos, quando nasceu. Em 2019, perdeu o pai quando ainda tinha 15 anos e conta que parou de cantar na ocasião. A interrupção, no entanto, não durou tanto tempo e, como era desejo dele, ela começou a fazer aulas de violão e canto.

Cézar Mendes relata que a artista o procurou para aprender a cantar e que passou a treinar com o violão quando a gravação se aproximava. “Eu não a via desde quando apareceu em minha casa com João (Gilberto). Depois, tivemos a ideia do álbum e convidamos Mario Adnet para pensar os arranjos. Eu e Mario sugerimos canções para o repertório, mas Loulu recusou várias sugestões e escolheu tudo. A base são as canções ensinadas pelo pai”, narra.

“Foi um processo de conclusão do ciclo de luto. Cantar se tornou a minha forma de cultivar a memória do meu pai e cultivá-lo dentro de mim. Seria impossível começar de outro lugar e seria, inclusive, injusto com a minha história. E, pessoalmente, também foi muito importante estar perto dele em pensamento”, descreve Loulu. “É como fazer um filme e depois assisti-lo. Você percebe todos os artifícios, macetes, soluções e viradas. Confesso que não fazia ideia do que era a produção de um disco, mas me apaixonei por esse processo de gravar a base e ir colorindo com os arranjos. Mudou completamente a minha vida e, sobretudo, a minha forma de ouvir e pensar música”, acrescenta a cantora.

Loulu fala ainda sobre seus planos para futuras gravações, destacando que sua estreia sedimenta o caminho que deverá trilhar entre a preservação de um legado e a construção de uma assinatura própria. “O meu trabalho vai sempre ter um pé na ideia de memória. É algo que me encanta e me dá propósito. Por outro lado, tenho muito interesse por compositores contemporâneos. Vários deles, na verdade, dialogam com este disco. Nada parte do zero, afinal. Meu trabalho, daqui por diante, com certeza vai seguir sendo uma síntese entre passado e futuro”, projeta.