Em clima de Copa, documentário "Buenosaires" retrata paixão de município pernambucano pela Argentina
O documentário "Buenosaires", dirigido por Tuca Siqueira, investiga os laços de afeto e a paixão pelo futebol do município pernambucano que se espelha na homônima argentina
O documentário “Buenosaires”, de Tuca Siqueira ("Amores de Chumbo"), traz um cântico entoado por seus entrevistados: "Sou argentino com muito orgulho e com muito amor”. Não se engane: a frase é dita em Buenos Aires, mas sem qualquer sotaque espanhol.
É que o cenário do filme não é o país vizinho, e sim o município com o mesmo nome da capital argentina situado na Zona da Mata Setentrional de Pernambuco, a apenas 80 km do Recife. E mesmo a 3.800 km de distância da cidade portenha, o abismo geográfico não impede que os moradores nutram uma curiosa e calorosa conexão afetiva com a identidade e os símbolos da "irmã" famosa.
Integrante da Mostra Competitiva de Longas do Cine PE, as filmagens de “Buenosaires” aconteceram sob a euforia da Copa do Mundo de 2022, que coroou a Argentina campeã. Agora, por uma feliz ironia do calendário, o documentário faz sua estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (11), exatamente no dia em que começa o novo Mundial de futebol.
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“Foram muitos anos de espera, mas estamos muito felizes. Achamos que o filme chega em um momento muito bacana”, celebra Tuca em entrevista ao Diario. O argumento surgiu em 2015, quando a cineasta pernambucana teve contato com o livro “Buenos Aires, Brasil”, do fotógrafo Josivan Rodrigues. Apesar de já conhecer a existência do município, ela passou a se interessar ainda mais por suas peculiaridades.
O resultado de anos de pesquisa e convivência com os moradores não resulta, necessariamente, no aprofundamento biográfico de cada figura. Em vez disso, o longa prefere registrar o lado pitoresco das histórias, como a de uma professora de espanhol com poucos alunos, a de um autêntico argentino radicado ali e a dos fanáticos pela seleção albiceleste. “Documentário é um campo de urgências, a gente sabe. Mas também precisa existir espaço para o sonho, senão não conseguimos descansar, respirar, e acabamos consumidos por tudo”, esclarece a diretora.
Ainda assim, não é necessário uma grande investigação para perceber que o futebol e a paixão que o cerca são o principal combustível dessa conexão entre as duas Buenos Aires. “Eu fui para as últimas Copas, com quatro anos de diferença entre uma e outra, e a cidade para de verdade para assistir aos jogos”, relata Tuca, que passou uma semana na Argentina registrando a torcida do Boca Juniors. Afinal, a identificação com o clube se reflete na cidade pernambucana de forma tão intensa que supera a tradicional rixa futebolística entre Brasil e Argentina. Não à toa, o time local foi batizado como Boca Júnior.
A escolha de uma narração feita totalmente em espanhol, ou portunhol, confere um tom lírico a “Buenosaires”. A voz do filme abraça a imperfeição típica de quem arrisca o idioma sem dominá-lo, em um claro paralelo com o próprio município, que também busca se fantasiar e se projetar no imaginário do país vizinho. “É algo extremamente coerente com essa cidade, onde tudo parece permitido, nada precisa ser perfeito e as pessoas se sentem livres para se lançar e fazer”, destaca.
É importante pontuar, no entanto, que a Buenos Aires brasileira continua a ser essencialmente pernambucana. “A gente teve uma preocupação muito grande de não passar a impressão de que todo mundo ali quer se parecer argentino”, afirma Tuca.
Como parte de uma Zona da Mata culturalmente forte, a identidade local dos moradores pulsa no cotidiano por meio de manifestações populares tradicionais, como os folguedos de boi, La Ursa e maracatu rural. O maior destaque é o Maracatu Estrela Dourada, reconhecido com títulos no Carnaval do Recife.