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'The Boys' encerra sua saga com desfecho previsível e sem empolgar

Com soluções burocráticas na reta final, "The Boys" amarra as pontas soltas da trama, mas deixa de lado a tensão que a consagrou

Por Allan Lopes

Antony Starr segue brilhando como Capitão Pátria na última temporada de The Boys

Poucos antagonistas dominaram tanto o ecossistema de uma série quanto o Capitão Pátria, já consagrado como um dos vilões mais icônicos da televisão através de “The Boys” (Prime Video). Por mais repugnantes que fossem as atitudes do tirano, Antony Starr teve o mérito de chamar para si o protagonismo absoluto. Sua atuação brilhante blindou o personagem em uma redoma de invencibilidade, sintonizada com o auge da própria produção, que reinou por anos no streaming.

No entanto, a quinta e última temporada mostrou duas linhas de declínio que correram em paralelo. Ao mesmo tempo em que o tirano desmoronava moralmente até virar piada, a narrativa experimentou uma perda de fôlego equivalente, resultando em episódios finais que não empolgaram. A partir daqui este texto contém spoilers da última temporada.

A questão aqui não envolve combates épicos ou pirotecnia visual, até porque subverter as fórmulas da Marvel e da DC sempre foi a premissa de “The Boys”. Mas, para o desfecho de uma trajetória de sete anos, o que se esperava era que os fios construídos fossem amarrados com o peso que mereciam.

O roteiro até entregou as resoluções prometidas para grandes arcos — como a caçada de Billy Butcher (Karl Urban) ao Capitão Pátria e a ameaça do vírus contra os Supers. No entanto, a maneira como tudo foi conduzido sabotou a tensão da série, entregando respostas que cumprem tabela no papel, mas se mostram apáticas na tela.

No fim das contas, o encerramento proposto pelo showrunner Eric Kripke fez sentido, mas à custa da previsibilidade. “Sangue e Ossos” limitou-se a colher o que vinha sendo plantado desde o terceiro ano da série. A perda de poderes do Capitão Pátria era o passo natural para a sua ruína, ainda que a motivação do Soldier Boy (Jensen Ackles) para mudar de lado tão repentinamente e ajudá-lo a se tornar imortal tenha deixado a desejar.

Além disso, a postura radical de Billy Butcher, disposto a liberar o vírus para erradicar os Supers, passa longe de ser surpreendente. Afinal, o histórico do personagem também sempre foi pautado por decisões moralmente duvidosas.

Falando em vírus, a participação dos personagens de “Gen V” foi um imenso papelão. Esperava-se muito mais, até porque o spin-off sacrificou sua própria identidade na última temporada para se limitar a duas funções: validar Marie Moreau (Jaz Sinclair) como uma ameaça ao Capitão Pátria e desenvolver a arma biológica fabricada na Universidade Godolkin.

Porém, exceto pelo vírus, o que se viu foi o descarte completo dos estudantes, gerando uma inevitável sensação de frustração para quem acompanhou o derivado sob a falsa promessa de que seria indispensável para a conclusão da saga principal. Na verdade, o esvaziamento de “Gen V” foi apenas um prenúncio da falta de profundidade que contaminaria a própria reta final da série mãe.

Por outro lado, é inegável que a veia satírica de “The Boys” em relação ao mundo contemporâneo permaneceu afiada, transformando a série em uma espécie de nova “Black Mirror” pelo seu retrato fiel dos noticiários atuais. O maior exemplo disso é o complexo de Deus do Capitão Pátria.

Ao projetar uma imagem de salvador da humanidade substituto de Jesus Cristo, o vilão escancara o extremismo contemporâneo alimentado por lideranças políticas messiânicas e expôs uma dinâmica perigosa onde o desejo de adoração irrestrita justifica qualquer violência.

O saldo final pode não ser de todo ruim, visto que foi um desfecho protocolar capaz de solucionar minimamente as pontas soltas da história. Ainda assim, é irônico que uma produção consagrada justamente por subverter os clichês e limitações dos roteiros de super-heróis tenha terminado refém das mesmas fórmulas burocráticas. Houve uma visível escassez de embates profundos que mantivessem o nível das temporadas anteriores, o que gerou em uma conclusão tão empobrecida quanto a dignidade de seu outrora imbatível vilão.