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Épico espanhol 'La Bola Negra' é um dos mais aplaudidos da história do Festival de Cannes

Melodrama épico "La Bola Negra' segue três homens gays em diferentes linhas de tempo; filme pode virar o jogo da competição pela Palma de Ouro na última hora

Por André Guerra - Enviado Especial

Longa recebeu 20 minutos de aplausos, tornando-se um dos mais ovacionados da história do Festival de Cannes

CANNES - É comum que os filmes mais fortes da disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes estreiem no meio do evento: nem cedo demais ao ponto de serem esquecidos ao final, nem tarde demais, quando o júri já pode estar com a decisão tomada. É preciso um grande acontecimento para mudar o jogo, mas é possível que isso tenha ocorrido justo no penúltimo dia da competição deste ano, com a chegada do espanhol "La Bola Negra". 

Dirigido pela dupla de cineastas Javier Ambrossi e Javier Calvo ("Los Javis") e internacionalmente celebrados pela minissérie "Veneno", o melodrama de quase 3h de duração acompanha três homens gays em diferentes linhas temporais.

A primeira delas se passa em 1932, mostrando um jovem de família rica tentando fazer parte de um clube tradicional de Granada — para o qual o símbolo de rejeição é a "bola negra" do título. A segunda, ambientada durante a Guerra Civil Espanhola, em 1937, traz a relação de amor que surge entre Sebástian (Guitarricadelafuente) e Rafael (Miguel Bernardeau), cujo conflito se torna o eixo central da ficção a certa altura. Já o último núcleo narrativo segue o jovem Alberto (Carlos González), um historiador que, após a morte do avô, investiga documentos que conecta as histórias anteriores.

"La Bola Negra" é inspirado na obra homônima inacabada de Frederico García Lorca, que escreveu apenas algumas páginas antes de ser assassinado durante a guerra, em agosto de 1936. Alguns elementos da trama também são adaptados diretamente da peça "La Piedra Oscura", escrita pelo dramaturgo Alberto Conejero, o que explica a centralidade dramática no núcleo de 1937.

REPERCUSSÃO

A dupla de diretores e a equipe receberam 20 minutos de aplausos após a sessão de estreia do filme no Grand Théatre Lumière, no 79º Festival de Cannes, tornando-se um dos filmes mais ovacionados da história do evento. A crítica internacional também foi conquistada pelo filme, sobretudo em uma competição que, no geral, trouxe um número maior de frustrações do que de grandes destaques positivos.

O sucesso de "La Bola Negra", pelo menos em sua primeira sessão, é fruto de seus próprios méritos. Independente da média da seleção oficial de Cannes, o longa espanhol é um mosaico poderoso e intenso sobre paixões silenciadas pelo tempo, sobre a busca por entender seu próprio passado e sobre a necessidade de viver um amor pleno.

Diga-se: "La Bola Negra" não é um romance, mas um épico de palpitações amorosas que não necessariamente se concretizam em tela. Visualmente, Los Javis filmam com uma criatividade que pouco se vê no cinema de média escala hoje em dia: seus planos são voluptuosos, carregados de energia e paixão. A trilha sonora, composta pelo prestigiado Raül Refree, é apropriadamente exagerada e costura as três linhas de tempo como uma sinfonia grandiosa que carrega o espectador pela longa duração sem que ele jamais se canse da jornada.

Participações memoráveis de Penélope Cruz e Glenn Close amarram pontas importantes da trama que, eventualmente, se enrola em suas próprias informações. Qualquer irregularidade de "La Bola Negra", porém, é compensada por algumas das mais bonitas cenas de todo o 79º Festival de Cannes.

E se a espetacular última sequência não for o suficiente para mobilizar o direcionamento do júri da competição, presidido pelo diretor sul-coreano Park Chan-wook, é difícil de imaginar o que o faria.