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Caminhada dos Terreiros reúne fiéis no Recife: "A gente diz não ao racismo"

Objeto sagrado foi instalado no Palácio da Justiça em ato considerado histórico pelo povo de terreiro; mobilização percorreu ruas do Centro do Recife e marcou os 20 anos da caminhada nesta quarta-feira (4)

Por Cadu Silva

Participantes da caminhada percorreram ruas do Centro do Recife em ato contra o racismo e a discriminação religiosa

“Há 20 anos, a gente diz não ao racismo, não a toda ordem de preconceito. Não podíamos ficar calados diante de tanta crueldade”. A declaração de Mãe Elza de Yemonjá, uma das principais lideranças do movimento e organizadora da Caminhada dos Terreiros de Pernambuco, resume a mobilização realizada nesta quarta-feira (4), no Centro do Recife. A programação reuniu representantes de religiões de matriz africana e afro-indígena em defesa da liberdade religiosa e do enfrentamento ao racismo.

A caminhada deste ano foi precedida por um momento considerado histórico pelo povo de terreiro: a entronização do Oxé de Xangô, machado de duas faces que representa o orixá associado à justiça, nas dependências do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). A solenidade ocorreu no Palácio da Justiça, na Praça da República, com a participação de representantes religiosos, autoridades e integrantes da Rede de Articulação da Caminhada dos Terreiros de Pernambuco (ACTP).

Para Mãe Elza, a instalação do objeto sagrado representa o reconhecimento institucional das religiões de matriz africana e a reparação de uma história marcada por perseguições.

“É a entronização que vai dizer que o tribunal, o Estado, reconhece as matrizes africanas como uma religião e que essa religião realmente precisava ser reconhecida dentro e fora do poder público”, afirmou.

A liderança também lembrou que instrumentos religiosos foram apreendidos e roubados de terreiros durante períodos de perseguição, inclusive na ditadura.

“A gente realiza um sonho ancestral, porque muitas pessoas não tiveram acesso ao Oxé. Muitas pessoas tiveram, no período da ditadura, seus instrumentos sagrados roubados de suas casas."

O presidente do TJPE, desembargador Francisco Bandeira de Mello, afirmou que a iniciativa simboliza o compromisso do Judiciário com a igualdade e o combate à discriminação.

“O Tribunal de Justiça hoje recebeu o Oxé de Xangô, que é um símbolo religioso das matrizes africanas e que evoca, entre outras coisas, o senso de justiça."

O objeto foi instalado no segundo andar do Palácio da Justiça, em frente ao Salão Nobre, um dos principais espaços de solenidades da instituição. Segundo o presidente, a presença do símbolo também representa um compromisso com a inclusão e o respeito a todas as religiões e crenças.

20 anos de mobilização

Criada em 2007, a Caminhada dos Terreiros de Pernambuco chega a duas décadas de mobilização pelas ruas do Recife. A iniciativa surgiu como uma forma de denunciar o racismo e a discriminação religiosa enfrentados por comunidades de matriz africana.

Mãe Elza ressaltou que a mobilização também busca chamar a atenção para outras formas de violência que atingem a população negra. “O racismo matou muito. Matou a juventude, matou o idoso, matou mulher. A gente sempre entende que isso é um crime que precisa ser penalizado."

A deputada estadual Dani Portela também participou da programação e destacou que o movimento vai além da defesa da liberdade de culto. Para ela, a discriminação contra religiões de matriz africana precisa ser compreendida como uma manifestação do racismo.

“A gente fala em intolerância, mas é mais do que uma intolerância. É uma intolerância dirigida a um grupo muito específico. A gente não vê uma intolerância contra outras religiões, mas vê o racismo expresso nas religiões de matriz africana e afro-indígena”, disse.

A parlamentar também ressaltou o simbolismo da instalação do Oxé de Xangô no espaço do Judiciário, instituição que, historicamente, também participou de processos de exclusão e perseguição às manifestações culturais e religiosas de origem africana.

“É um momento histórico de reparação. É o orixá da justiça dentro do Palácio da Justiça. Durante todo o período da Colônia e do Império, nosso povo foi perseguido. Nossa religião foi demonizada."

Caminhada pelas ruas do Centro

Após a solenidade no TJPE, os participantes seguiram em caminhada pelas ruas do Centro do Recife. Excepcionalmente neste ano, a concentração ocorreu na Praça da República, em vez do Marco Zero, ponto de partida tradicional da mobilização.

O percurso incluiu a passagem em frente ao Palácio do Governo e pelas ruas do Sol, Guararapes e Dantas Barreto. A programação também contou com cânticos de orixás e manifestações culturais e religiosas, além de uma roda de Jurema, com participação de representantes da Jurema e da Umbanda.

Para Mãe Elsa, a caminhada representa a continuidade de uma luta construída por gerações. “Antes de tudo aquilo que nossos pais queriam e sonhavam, seus filhos estão dando continuidade. Eu sou uma dessas filhas”, declarou.