Autismo na vida adulta reforça desafios e oportunidades após diagnóstico tardio
Desafios da neurodivergência atingem 2,4 milhões de pessoas no Brasil; Dados foram divulgados no Censo 2022 do IBGE
O autismo é uma condição neurodivergente que atinge cerca de 2,4 milhões de pessoas no Brasil, aproximadamente 1,2% da população. À medida que essa população chega à adolescência e à idade adulta, surgem demandas específicas relacionadas à autonomia, empregabilidade, educação, saúde, relacionamentos e envelhecimento.
O autismo acompanha a pessoa ao longo de toda a vida, mas grande parte das discussões, da formação profissional e das políticas de atendimento ainda estão concentradas na infância. Inúmeros relatos reforçam que, muitas vezes, o diagnóstico de neurodivergência vem tardiamente, já na vida adulta.
Uma dessas pessoas é Suelene Trajano, que é pedagoga, psicopedagoga e autista, além de ser mãe atípica. Ela relata que o diagnóstico foi uma oportunidade de autoconhecimento. "Esse diagnóstico representou, para mim, muito mais do que a identificação de uma condição: foi uma oportunidade de autoconhecimento, que chegou depois de muitos anos vivenciando a maternidade atípica", destaca.
Trajano também explica que, apesar de ter chegado tardiamente, o diagnóstico trouxe esperança e a possibilidade de ressignificar a sua história. "Passei a compreender melhor como percebo o mundo, como me relaciono com as pessoas e como me insiro na sociedade. Essa compreensão também transformou a minha realidade profissional. Comecei a reconhecer determinadas dificuldades e a desenvolver estratégias de autorregulação que me ajudam a exercer meu trabalho e a lidar melhor com as demandas do cotidiano", comenta.
A pedagoga reforça que muitas necessidades podem passar despercebidas para pessoas autistas com nível de suporte 1. "Sou uma pessoa autista com nível de suporte 1 e, por isso, muitas vezes, minhas necessidades podem passar despercebidas. Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa autista que consegue trabalhar, estudar e realizar suas atividades com autonomia não precisa de apoio".
Ela complementa que, no entanto, o autismo é uma condição complexa, e as necessidades de cada pessoa precisam ser reconhecidas e respeitadas. "Não se trata apenas de ter um diagnóstico, mas de compreender como ele impacta a vida de cada indivíduo e quais condições são necessárias para que ele possa participar plenamente da sociedade", ressalta.
Para Suelene, enquanto mãe, um dos seus maiores desafios é ajudar seu filho, que possui autismo com nível de suporte 3, a compreender e ocupar seu lugar na sociedade. "Ele é autista com nível de suporte 3 e precisa de um acompanhamento mais significativo, inclusive no que diz respeito à sua inserção profissional. Para ela, precisamos pensar em possibilidades de trabalho assistido, com orientação, acompanhamento e adaptações que permitam o desenvolvimento de suas habilidades e a realização de atividades profissionais de acordo com suas necessidades", observa.
Suelene ainda comenta sobre a importância do Congresso do Autismo na Vida Adulta, que irá acontecer neste sábado (17) e domingo (18). O evento reúne profissionais de saúde e educação, familiares, autistas adultos, pesquisadores e empresas para discutir os desafios e as possibilidades dessa etapa da vida.
"Ele vem contribuindo para esclarecer dúvidas e ampliar as perspectivas de pais, mães, profissionais e pessoas autistas que se questionam sobre o futuro dessa população. Precisamos discutir questões que vão muito além do diagnóstico: a qualificação profissional, a inclusão no mercado de trabalho, a moradia, a autonomia, o acesso aos direitos e a construção de uma vida adulta digna."
"Para mim, o Congresso representa justamente essa possibilidade de enxergar caminhos, conhecer experiências e descobrir alternativas que nos permitam construir um futuro melhor para nossos filhos e para nós mesmos, enquanto pessoas autistas. Precisamos ser reconhecidos não apenas pelo diagnóstico, mas pela nossa individualidade, pelas nossas capacidades e pelo nosso direito de participar ativamente da sociedade", conclui.
Congresso do Autismo na Vida Adulta
A quarta edição do Congresso do Autismo na Vida Adulta reúne especialistas, famílias e autistas para discutir autonomia, trabalho, saúde, relacionamentos e inclusão. O evento ocorre nos dias 17 e 18 de outubro, das 8h às 18h, no Mar Hotel Conventions, em Boa Viagem, no Recife.
Além das palestras, o congresso terá apresentações culturais de pessoas neurodivergentes, exposição de trabalhos científicos, relatos de experiências de autistas adultos e momentos de networking.
A psicóloga Frínea Andrade, idealizadora do evento e diretora do Instituto Dimitri Andrade, é uma das palestrantes do Congresso e mãe atípica do jovem Dimitri, que possui autismo com nível de suporte 3. Ela comenta que o evento nasce de uma escassez acerca dos debates sobre a vida dos autistas.
"O congresso nasce de uma escassez. O autismo acompanha o sujeito para a vida toda, e precisamos capacitar os profissionais que vão atender esse adulto e também levar informação para as empresas que vão receber o funcionário atípico. No Norte e Nordeste, não havia um congresso que fizesse esse recorte da vida adulta, que requer adaptações e intervenções específicas”, explica.
Frínea ainda comenta sobre seu filho, Dimitri, que precisa de adaptações e intervenções específicas. A experiência dela como mãe aborda a criação do congresso e reforça a necessidade de ampliar o debate sobre as diferentes realidades vividas por adultos autistas.
"Quando penso na vida adulta, não posso esquecer do Dimitri, meu filho, que tem 19 anos e é autista nível 3 de suporte. É uma inquietação que transformamos em busca de conhecimento, compartilhamento de experiências e troca", conta.