Primeiro mês de monitoramento não captura tubarões envolvidos em ataques em Pernambuco
Projeto retomado após 11 anos realizou quase 20 lançamentos de espinhel em setembro, mas só foram capturados dois animais de espécies não envolvidas nos ataques
O primeiro mês de retomada do monitoramento científico de tubarões no litoral de Pernambuco terminou sem a captura de nenhum tubarão-tigre ou cabeça-chata, espécies associadas aos principais incidentes registrados no estado.
Foram realizadas oito expedições em setembro e quase 20 lançamentos de espinhel, segundo o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Projeto ECOTUBA, Paulo Oliveira. “Até agora, nessas oito saídas, nós não capturamos nenhum tubarão-tigre e nenhum tubarão-cabeça-chata. Provavelmente, isso indica a baixa distribuição, a baixa abundância dessas espécies aqui na costa.”
O monitoramento foi retomado no início de setembro, após 11 anos de interrupção das pesquisas na costa continental de Pernambuco. O Projeto ECOTUBA, coordenado pelo Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE em parceria com o Governo de Pernambuco, terá duração de 24 meses e prevê a marcação de até 50 tubarões.
De acordo com o pesquisador Paulo, é provável que os animais monitorados no programa anterior não sejam identificados pelos equipamentos atuais, uma vez que os chips utilizados tinham vida útil de 10 anos.
A retomada ocorreu poucos meses depois de dois ataques graves registrados em menos de 24 horas no Grande Recife. Em 31 de maio, um menino de 11 anos foi atacado por um tubarão-cabeça-chata na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e teve a perna esquerda amputada.
No dia seguinte, uma estudante de 19 anos foi atacada por um tubarão-tigre em Boa Viagem, no Recife, e perdeu a perna direita. Os dois casos fizeram Pernambuco chegar a 84 incidentes registrados desde 1992.
Mesmo sem marcação de nenhuma das duas espécies consideradas potencialmente agressivas nas oito expedições, a equipe conseguiu marcar dois animais de outras espécies.
Um tubarão-flamengo fêmea foi capturado em frente à Praia de Piedade e o animal tinha cerca de 1,4 metro segundo o registro divulgado após a captura. Ele foi submetido a procedimentos de pesquisa antes de ser devolvido ao mar.
O segundo animal foi um filhote de tubarão-rabo-seco, com aproximadamente 40 centímetros, capturado na região de Barra de Jangada, próximo à saída dos rios Jaboatão e Pirapama.
“Esse tinha aproximadamente 40 centímetros. O curioso desse exemplar é que ele ainda estava com a marca do cordão umbilical, indicando que havia nascido recentemente. Isso configura o local onde ele foi capturado como uma área provável de berçário para algumas espécies de tubarões, como é o caso do tubarão-rabo-seco”, explicou Paulo Oliveira.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas), os dois animais receberam marcação individual com tag plástica. As espécies não são consideradas potencialmente agressivas e também são capturadas pela pesca artesanal.
Paulo Oliveira espera que um primeiro conjunto de dados mais consistente esteja disponível após três meses de trabalho, em dezembro. A partir da continuidade das expedições e da instalação dos receptores, a equipe deverá ter melhores condições para identificar padrões de deslocamento e aproximação da costa.
Saídas
A previsão é que o trabalho continue com uma frequência de oito a dez expedições mensais. De acordo com Paulo Oliveira, as equipes têm priorizado períodos de lua cheia e lua nova.
O professor explica que, nesta primeira etapa, também foram realizados ajustes nos equipamentos, materiais e procedimentos de captura. A Semas informou que essa fase é necessária para aperfeiçoar as próximas expedições.
A captura é feita por meio de pesca científica com espinhel e os animais recebem uma marca interna, por meio de um transmissor, e uma marca externa. Após os procedimentos, são devolvidos ao mar.
A etapa seguinte será a instalação de receptores dentro da água. “Quando eles passam nas proximidades de outro equipamento, chamado receptor, que está dentro da água, eles começam a ser detectados. Então, agora em outubro, nós vamos começar a colocar esses receptores”, explicou o professor Paulo.
A tecnologia também poderá permitir a identificação de padrões de utilização do espaço pelos animais. Entre as perguntas que os pesquisadores pretendem responder estão se determinadas espécies se aproximam mais da costa em fases específicas da Lua ou durante períodos de maré.
Retomada após 11 anos
O antigo Projeto de Pesquisa e Monitoramento de Tubarões da Costa de Recife (Protuba), desenvolvido pela UFRPE, realizou pesquisas entre 2004 e 2014. Depois da interrupção das atividades na região metropolitana, o trabalho de monitoramento continuou em Fernando de Noronha.
O ECOTUBA já desenvolve pesquisas no arquipélago e utiliza receptores acústicos para acompanhar tubarões marcados. Em 2023, a Administração de Fernando de Noronha informou que havia 79 tubarões-tigre e 38 tubarões-limão monitorados na região.
Na costa continental, a nova fase do projeto busca produzir informações sobre ocorrência, distribuição e deslocamento dos animais e relacioná-las às condições ambientais. A expectativa é utilizar os dados para aperfeiçoar medidas de prevenção e orientar a população sobre formas mais seguras de utilização do mar.
Além das pesquisas no mar, o projeto mantém ações de educação ambiental em escolas, espaços públicos e na própria UFRPE. A Semas informou que o objetivo é ampliar o conhecimento da população sobre os tubarões e orientar os banhistas para uma utilização mais segura do mar.
A população pode acompanhar o trabalho dos pesquisadores por meio das redes sociais do projeto ECOTUBA.