Preso saía do presídio de Igarassu para fazer procedimentos estéticos no Recife
Novos detalhes das investigações revelam organograma e modus operandi da facção que comandava o tráfico de drogas em Rio Formoso, no Agreste de Pernambuco
Apontado como integrante da facção criminosa Sindicato do Crime, Lyferson Barbosa da Silva, vulgo Lobo, costumava sair e voltar do Presídio de Igarassu para fazer procedimentos estéticos no Recife. A informação consta em movimentações processuais recentes, que têm revelado novos detalhes das investigações da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Pernambuco (Ficco/PE) acerca do modus operandi das facções relacionadas ao tráfico de drogas de Rio Formoso, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, entre agosto de 2022 e janeiro de 2024.
As apurações tiveram início em um inquérito policial instaurado no dia 5 de maio de 2022, após a notícia de que o intenso tráfico na cidade era comandado pela facção liderada por Esdras Rodrigues Barros Silva, conhecido como Deda Vaqueiro.
Atualmente detido no presídio de segurança máxima de Tacaimbó, no Agreste de Pernambuco, ele comandava o tráfico de Rio Formoso de dentro do presídio de Igarassu.
À época, o caso também foi apurado pela Polícia Federal por meio da Operação La Catedral, que revelou detalhes das regalias de Lyferson no presídio de Igarassu, incluindo uso de aparelhos celulares, cela individual com itens de luxo, visitas de garotas de programa e subcelebridades, além de manter um laboratório para refino de crack no interior do presídio.
Conhecido como “chaveiro” da unidade, ele também promovia festas regadas a drogas e bebidas alcoólicas à vontade, com múltiplos convidados, músicos e até serviço de buffet.
Sob a liderança de Lyferson, o Sindicato do Crime era uma das duas organizações que atuavam para fornecer drogas – notadamente maconha, crack e cocaína– à facção de Deda Vaqueiro. O material ilícito também tinha como fonte a Okaida, da Paraíba.
Nesta segunda facção, o esquema de “Vaqueiro” tinha como principais interlocutores Thiago Kadoshi M. de Andrade, vulgo Playboy, e Victor Alexandro S. Magalhães Barros, conhecido como “Surfista”.
Dois núcleos, quase 40 citados
O caso se desdobrou em diversos processos judiciais, que revelam a complexa teia de investigados. Com base na apreensão de celulares e na investigação de movimentações financeiras dos envolvidos, as forças de segurança concluíram que o grupo de “Vaqueiro” teria estabelecido relações com outras organizações criminosas, traficantes, fornecedores, financiadores do tráfico, pessoas que cediam contas bancárias e empresários que, segundo a acusação, atuavam na lavagem de capitais, com o objetivo de ampliar o comércio de drogas e aumentar os lucros.
Segundo a Ficco/PE, a organização criminosa liderada por Deda Vaqueiro funcionava a partir de uma estrutura com divisão de tarefas, formada por dois grandes núcleos: um diretamente ligado à facção de Rio Formoso e outro associado aos fornecedores de drogas que mantinham ligação com a Okaida e o Sindicato do Crime.
O primeiro núcleo seria formado por Esdras “Vaqueiro” e outros oito investigados. Um deles, William Vinicius Tristão da Silva, o “Menor” seria responsável pela gestão financeira da organização criminosa do grupo.
Ao lado de Maria Eduarda de Oliveira Santos, a “Duda” , William encabeçaria o núcleo responsável pela ocultação do dinheiro atribuído ao tráfico, utilizando nomes e contas bancárias próprias e de terceiros para movimentar os valores de maneira velada. À Justiça de Pernambuco, o Ministério Público apontou ainda que esse grupo teria utilizado o dinheiro para aquisição de patrimônio.
O segundo núcleo seria composto por pelo menos 26 pessoas associadas aos fornecedores de “Vaqueiro”. Entre elas estariam Lyferson Barbosa; Márcio Gomes “Aranha”; Thiago Kadoshi; Márcio Gomes da Silva, o “Mago Aranha”; Simone Helena Xavier da Silva e Arthur Vinicio da Silva, o “Arthur Zé”.
A investigação identificou o esquema financeiro que sustentaria essa estrutura. O MPPE afirma que os líderes das organizações estavam presos e precisavam de terceiros considerados “ficha limpa” para movimentar os recursos. Pessoas físicas e empresas seriam utilizadas para fazer o dinheiro circular e dar aparência de legalidade aos valores.
Nesse ponto, a denúncia atribui papel central a Simone, que movimentaria dinheiro para diversos integrantes do “Sindicato do Crime”. O órgão também afirma que alguns dos envolvidos eram empresários e comerciantes que utilizavam seus próprios negócios para dar aparência de legalidade às movimentações financeiras.
Lavagem de dinheiro
Ainda de acordo com a acusação, o “centro intelectual” da distribuição do dinheiro do “Sindicato do Crime” seria Márcio “Mago Aranha”, em conjunto com Arthur “Zé”, companheiro de Simone. O MPPE cita também a colaboração de empresários e comerciantes apontados como destinatários dos valores.
O dinheiro relacionado à organização de “Vaqueiro”, por sua vez, teria um fluxo próprio. Segundo a denúncia, William “Menor” e Maria Eduarda eram os responsáveis por encabeçar o núcleo de ocultação desses valores, recorrendo a contas deles próprios e de terceiros e, segundo o MPPE, à aquisição de patrimônio.
Quanto ao braço relacionado à “Okaida”, a denúncia aponta Anne Jucyelle Pereira Maciel, Victor Alexandro Siqueira Magalhães Barros, o “Surfista”, Gessika Alves e Anderson Cavalcante da Silva, conhecido como “Saúba”, como figuras centrais no núcleo de ocultação de capital. Segundo o Ministério Público, eles movimentavam valores provenientes das transações de drogas realizadas por Thiago Kadoshi, inclusive enquanto ele estava preso.
A investigação foi ampliada com interceptações telefônicas, quebras de sigilo telemático de contas Google e Apple e análise de dados financeiros fornecidos pelo Coaf. O MPPE afirma que essas provas permitiram identificar a forma de atuação e a divisão de tarefas entre os diferentes integrantes.
Presídio de Igarassu
As irregularidades identificadas no funcionamento do Presídio de Igarassu e a atuação das facções criminosas na unidade também resultaram na prisão do então diretor do presídio, Charles Belarmino. As investigações apontaram o envolvimento dele nas irregularidades relacionadas ao funcionamento da unidade e às regalias concedidas a detentos.
A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) foi procurada para se posicionar sobre os fatos apurados à época e sobre o funcionamento da unidade, mas não se manifestou até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.