Descoberta de 16 cápsulas de tubarão-lixa reforçam importância de área de reprodução em Fernando de Noronha
Descoberta foi feita durante monitoramento do Projeto Ecotuba e indica que a área conhecida como Alagados dos Tubarões é utilizada pelos animais para acasalamento, desenvolvimento embrionário e parto
A descoberta de 16 cápsulas de tubarão-lixa nos Alagados dos Tubarões, área localizada perto do Porto de Santo Antônio e da Capela de São Pedro, em Fernando de Noronha, ajudou pesquisadores a confirmar a importância da região para a reprodução da espécie.
O local, que já era conhecido por ser utilizado pelos animais para alimentação e aquecimento das fêmeas, também é um ponto de acasalamento e apresenta evidências de uso para o nascimento dos filhotes.
As cápsulas, conhecidas como “bolsas de sereia”, foram encontradas pela pesquisadora Mariana Rêgo, do Projeto Ecotuba, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), durante o monitoramento realizado na área. Segundo ela, a quantidade chamou atenção, já que normalmente são encontradas apenas uma ou duas estruturas na ilha.
“Esse ponto de achar a cápsula mostra que, literalmente, aquela área é um local de parto. Então, provavelmente, este é um período em que as fêmeas parem. Foi um número realmente gigantesco”, explicou.
Monitoramento acompanha reprodução
O acompanhamento científico na região começou com a captura de fêmeas de tubarão-lixa para exames de ultrassonografia. A intenção era verificar cientificamente a utilização dos Alagados dos Tubarões pelas fêmeas para permanecerem em águas mais aquecidas durante o desenvolvimento dos embriões.
Segundo Mariana, o comportamento foi observado durante a pesquisa. As fêmeas se aproximam de áreas rasas, onde as pedras ficam aquecidas ao longo do dia. Em junho, os pesquisadores também registraram cópula de tubarões-lixa na região e identificaram fêmeas grávidas.
“Desde o início desse monitoramento, a gente descobriu que realmente esse local é um sítio reprodutivo. Elas acasalam ali e elas parem ali”, afirmou.
As cápsulas permanecem no ambiente após serem expelidas pelas fêmeas e, como os Alagados têm acesso restrito a pesquisadores, podem permanecer no local até serem reabsorvidas pelo ambiente ou consumidas por outros animais.
Descoberta também ajuda na educação ambiental
As cápsulas encontradas também são utilizadas pelo projeto em ações de educação ambiental. Segundo Mariana, o grupo mantém um acervo biológico para explicar ao público a importância dos tubarões e dos ecossistemas marinhos.
No caso do tubarão-lixa, o embrião se desenvolve dentro de uma cápsula no interior do útero da fêmea, em um processo conhecido como lecitotrofia.
“É interessante ver uma cápsula de um ovo de tubarão, principalmente para essa espécie, que tem um desenvolvimento de cápsula interno no útero. É mais diferente ainda”, explicou.
Reprodução lenta exige atenção
O monitoramento também identificou a presença de tubarões-limão na região. A hipótese dos pesquisadores é de que os animais estejam utilizando o local em busca de alimento, inclusive possíveis filhotes de tubarão-lixa.
Para Mariana, compreender o ciclo reprodutivo dos tubarões-lixa é importante para a conservação da espécie. Segundo ela, apesar da capacidade de adaptação dos animais, a reprodução ocorre de forma mais lenta.
“O tubarão é bastante resiliente, mas ele não consegue ter uma reprodução muito rápida. Então, a gente precisa realmente ter o cuidado e a preocupação com esses animais para que os oceanos se mantenham”, afirmou.
A pesquisadora também alerta para os impactos da poluição, das mudanças climáticas e do lixo nos oceanos.
“São animais que estão no planeta há 400 milhões de anos. Provavelmente eles vão permanecer aqui. Porém, se a gente continuar poluindo os oceanos, com toda essa mudança climática e essa questão do lixo, a gente vai perder essas espécies”, declarou.
O monitoramento faz parte de uma pesquisa da UFRPE que busca ampliar o conhecimento sobre o comportamento, a reprodução e o desenvolvimento dos tubarões que utilizam Fernando de Noronha.