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Estudo de universidade identifica contaminação em caranguejos coletados em Pernambuco

Pesquisa analisou crustáceos de Pernambuco e do Ceará; pesquisadores ressaltam que não é necessário interromper o consumo do alimento

Por João Tavares - Especial para o Diario

Estudo revelou presença das substâncias da família dos bisfenóis tanto na urina quanto na hemolinfa (o referente ao "sangue") dos crustáceos

Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou a presença de substâncias da família dos bisfenóis em caranguejos coletados em Itapissuma, no Litoral Norte de Pernambuco, e em Fortim, no Ceará. Os compostos são considerados potencialmente tóxicos e podem interferir no sistema hormonal.

O estudo, porém, não recomenda a interrupção do consumo de caranguejos, mas alerta para a necessidade de monitorar a contaminação dos manguezais e melhorar a gestão de resíduos.

As amostras foram coletadas em 2025 e analisadas a partir da urina e da hemolinfa, líquido equivalente ao sangue dos crustáceos. Os pesquisadores encontraram bisfenóis nos dois materiais, o que indica que os contaminantes estavam circulando pelo organismo dos animais.

Entre as substâncias identificadas estão os bisfenóis A (BPA), F (BPF) e C (BPC). Em parte das amostras, os níveis ultrapassaram valores de ingestão diária tolerável considerados para seres humanos. 

Em entrevista à Agência UFC, o professor Rivelino Cavalcante, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) e coordenador do estudo, explicou que a contaminação pode estar relacionada ao descarte inadequado de resíduos.

Segundo o pesquisador, os bisfenóis podem chegar aos manguezais por meio de resíduos domésticos e industriais, esgoto e outras fontes de poluição. Os caranguejos acabam funcionando como indicadores da qualidade ambiental desses ecossistemas.

“O problema é quando esse material vai para o descarte. Se ele vai para um aterro sanitário ou reciclagem, tudo bem. Agora, se ele vai parar num lixão, ou em um aterro não controlado, aí é onde está o problema, pois as substâncias contidas nele vão chegar no ambiente”, afirmou. Comprovantes de cartão e recibos de caixas de supermercado estão entre os materiais que podem carregar derivados de bisfenol.

Risco para consumidores

O BPA é associado a alterações no sistema endócrino e já foi relacionado, em estudos, a problemas reprodutivos, metabólicos, neurológicos e imunológicos. O BPF, utilizado em alguns produtos como substituto do BPA, também apresenta potencial de desregulação hormonal.

Cavalcante ressalta, no entanto, que a pesquisa não avaliou os efeitos da exposição em seres humanos. “Isso não quer dizer que uma pessoa terá um problema de saúde após consumir um único caranguejo, mas indica que o consumo frequente e contínuo de organismos contaminados pode aumentar o risco de efeitos associados aos desreguladores endócrinos”, explicou à Agência UFC.

Os pesquisadores também destacam que os animais foram analisados vivos, antes do preparo. Por isso, ainda são necessários estudos específicos para determinar o comportamento dos contaminantes após o cozimento.

Contaminação em manguezais

O levantamento faz parte de um projeto mais amplo do Labomar, que investiga a presença de bisfenóis e outros contaminantes em manguezais do Norte e Nordeste, desde o Pará até o sul da Bahia. Cerca de 300 caranguejos, distribuídos em aproximadamente 17 áreas, já foram analisados.

“Pela primeira vez, detectamos a presença de bisfenóis em todos os manguezais estudados no Norte e Nordeste”, adiantou Cavalcante.

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o monitoramento ambiental, melhorar o saneamento, o tratamento de efluentes e a destinação dos resíduos sólidos.

“O caranguejo continua sendo um alimento importante para a cultura, a economia e a segurança alimentar de muitas comunidades. Os resultados do estudo servem como um alerta para que o poder público invista na redução da poluição que chega aos rios e manguezais”, afirmou.