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Ancestralidade que vira caminho: Kizomba das Raízes transforma o Alto José do Pinho em roteiro de memória e cultura

Circuito de turismo de base comunitária percorre ruas, espaços culturais e casas de moradores neste sábado (22), para apresentar ao visitante uma Zona Norte construída pela cultura negra, pela religiosidade e pela resistência

Por Cadu Silva

O Mirante do Castanha será um dos pontos visitados

Antes de ser roteiro turístico, o Alto José do Pinho é território de memória. Nas ruas, nos terreiros, nos maracatus, nos grupos de música, nas casas de artistas e nos sabores vendidos pelos moradores existe uma história que nem sempre aparece nos mapas tradicionais do Recife. É dessa memória que nasce a Kizomba das Raízes — Alto José do Pinho: Fé, Terra e Rebeldia, circuito que estreia neste sábado (22) e propõe uma outra forma de conhecer a cidade.

Em vez de apresentar o território apenas como destino, a experiência parte de quem vive nele. São 2,1 quilômetros de caminhada, com duração aproximada de três horas e 15 pontos de experiência. O percurso passa por manifestações culturais, espaços religiosos, pequenos negócios, casas de artistas, praças, mirantes e locais que fazem parte da construção cotidiana do Alto José do Pinho.

A ancestralidade é o fio que conecta as diferentes paradas. A história do Afoxé Ylê de Egbá, que completa 40 anos, está no centro da proposta. A entidade, reconhecida como Ponto de Cultura e Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, é uma das referências que ajudam a contar como a cultura negra foi construída e permanece viva na Zona Norte.

A proposta é conduzida pelo artista e guia de turismo Fernando Lopes, que desenvolve há cerca de cinco anos experiências de turismo de base comunitária no Morro da Conceição. Para ele, o circuito não nasceu de uma decisão externa sobre o que deveria ser mostrado no Alto José do Pinho. “Na verdade, a gente foi escolhido pelo Alto. O Alto não foi escolhido”, afirma.

A relação com o território, segundo Fernando, é parte essencial da experiência. Ele define o turismo de base comunitária como uma forma de apresentar o que existe de melhor dentro da própria comunidade. “O turismo de base comunitária foca na fartura que a comunidade tem, não na falta”, diz.

Ao longo da caminhada, o visitante encontra manifestações culturais, música, dança, religiosidade e gastronomia. O roteiro inclui o Mirante do Castanha, o Maracatu Estrela Brilhante, a Tribo Tapirapé e o Clube Bom Sucesso, além das casas e histórias de personagens ligados à cultura local, como Canibal, Adilson Ronruna e Zé Brown.

Também há espaço para os sabores do cotidiano, com paradas para produtos como picolé, dudu e o Caldinho do Bill.

Quarenta anos de uma história

A escolha do Alto José do Pinho também está diretamente relacionada aos 40 anos do Afoxé Ylê de Egbá. A programação começa no Sesc Casa Amarela, onde haverá uma exposição do mestre Zezinho e uma palestra com Canibal, da banda Devotos e do Café Preto.

Depois, o grupo segue para o território. A antiga e a atual sede do Ylê de Egbá estão entre os pontos do circuito.

O afoxé é Ponto de Cultura desde 2018 e recebeu, em 2023, o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. A trajetória da entidade se mistura à história cultural do Alto José do Pinho e ajuda a explicar a presença da música, da religiosidade e das manifestações afro-brasileiras no território.

Para Fernando, transformar essa história em roteiro turístico também é uma forma de impedir que ela desapareça.

“Esse circuito é exatamente para valorizar essa nossa ancestralidade, que muitas vezes vem sendo apagada”, afirma.

O percurso termina no Espaço Poeses, onde haverá uma roda de conversa e, em seguida, a celebração pelos 40 anos do Afoxé.

Quando o maracatu encontra o território

A ancestralidade também chega ao circuito por meio do maracatu. A Nação do Maracatu Porto Rico participa da programação com um cortejo previsto para as 19h.

Mestre Chacon Viana, integrante da Nação Porto Rico e babalorixá do Ilê Oxóssi Guangobira, destaca a relação entre o maracatu e a religiosidade de matriz africana. “Maracatu é o terreiro na rua”, afirma.

Para ele, participar da Kizomba das Raízes representa fortalecer uma rede de manifestações que carregam memória, fé e resistência.

“O maracatu é família. É educação, é saúde, é resistência, é preservação, é tradição”, diz.

A Nação Porto Rico, com sede no Pina, também atua como Ponto de Cultura e Ponto de Memória. A participação no circuito amplia uma conexão entre territórios diferentes do Recife a partir de uma história cultural compartilhada.

África presente no Recife

A programação ainda coloca em cena uma conexão direta com manifestações africanas. O grupo Danza África, coordenado pelo artista estadunidense Erick Jamal Oliver, participa das atividades com dança e percussão.

Erick vive no Brasil há 24 anos e desenvolve trabalhos com música e dança africanas há mais de três décadas. Em Pernambuco, mantém atividades há mais de dez anos e realiza pesquisas e oficinas relacionadas a manifestações de diferentes regiões do continente africano.

A proposta inclui elementos ligados ao djembe e às danças da Guiné e de outros territórios africanos.

Para Erick, o encontro no Alto José do Pinho representa a possibilidade de ampliar um intercâmbio cultural que já vem sendo construído.

“Somos artistas de dança, música e percussão. Isso faz parte do nosso dia a dia”, afirma.

A presença do grupo também reforça a ideia de que a ancestralidade não é tratada apenas como memória do passado, mas como uma produção cultural que continua acontecendo.

A primeira edição da Kizomba das Raízes deve reunir entre 30 e 40 pessoas. O número é pequeno diante da dimensão da cidade, mas a proposta aponta para uma mudança de perspectiva, ampliar o que o Recife apresenta sobre si mesmo.

O circuito não pretende substituir os roteiros tradicionais. A ideia é acrescentar outros territórios à experiência de quem visita a capital pernambucana, e também de quem mora nela.

No Alto José do Pinho, a rua vira caminho, a casa vira ponto de memória, o maracatu vira narrativa e a gastronomia cotidiana passa a integrar a experiência.

Serviço:

A primeira edição da Kizomba das Raízes — Alto José do Pinho: Fé, Terra e Rebeldia acontece neste sábado (22), a partir das 13h, com saída do Sesc Casa Amarela, localizado na Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, 4.490, em Mangabeira, no Recife.

A participação custa R$ 50 por pessoa. Informações sobre o circuito e novas edições podem ser acompanhadas pelas redes sociais do Turismo Entre Altos e do Afoxé Ylê de Egbá.